sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ana Primavesi: Observar, Conhecer e Integrar - Passos para uma Ecologia da Vida*

A partir de seu olhar sobre o solo, Ana Primavesi defende a necessidade de apreender amplamente as dinâmicas formas de vida para só então se integrar num sistema produtivo ecológico.


Por: João Vitor Santos

Ela tem 96 anos e a paixão de toda a vida: o solo. Essa é Ana Maria Primavesi, pioneira no Brasil no tema da produção ecológica. Uma pesquisadora de laboratório e campo, capaz de pôr em prática uma perspectiva sistêmica sobre as formas de vida. “É preciso observar mais a natureza”, resume ela, ao falar sobre os caminhos para se produzir alimento saudável para o ser humano e um meio ambiente sadio. Hoje, vive com a filha, Carin, numa casa na cidade de São Paulo, construída por ela nos anos 1950, cercada de jardins. Apesar das limitações físicas em decorrência de uma lesão no fêmur, a professora procura ir ao campo, mesmo que seja pertinho da metrópole.

Para compreender o que está por trás da “lógica Primavesi”, é preciso também conhecer um pouco mais dessa mulher. Nasceu em 1920 em St. Georgen ob Judenburg, na Áustria. Chegou ao Brasil em 1949 e naturalizou-se. “Após a guerra, com tantas mortes na família, também dos irmãos queridos, eu e meu marido, que tínhamos perdido todas as propriedades agrícolas, decidimos que era preciso procurar por paz, respirar ares novos, onde houvesse maior possibilidade de realizar nossos sonhos e esperanças”, recorda. 

Ana Maria cresceu em meio ao campo e, atenta e observadora, daí foi um passo para se tornar uma cientista da área. “Meus pais eram muito ligados à atividade agropecuária e florestal. E na universidade éramos levados a realizar atividades de pesquisa desde o primeiro semestre. Fui treinada a observar já em termos de sistema de produção, de forma holística”. “Também tive dois professores que ensinaram a fazer um tipo de ‘exame clínico’ com muita observação e visão integrada”, recorda. Assim que chegou ao Brasil, ela e o marido passaram a produzir no interior de São Paulo, a partir de técnicas ecológicas de manejo do solo. Assim, aliava a pesquisa nos laboratórios à prática de campo. “Tivemos certeza de nosso caminho quando meu marido conseguiu produzir um trigo tipo canadense (de altíssima qualidade) em um solo degradado”, destaca.

Mas no que consistem seus princípios? Para Ana, é preciso “observar a natureza, em como ela, a partir de ecossistemas primários, construía os ecossistemas naturais clímax, com alta capacidade de manter vida e produção, e com todas as estruturas de ecossistemas desenvolvidos”. Ou seja, observar a ecologia da vida e, assim a conhecendo, se integrar ao sistema amplo capaz de gerar vida, produzir e até corrigir desequilíbrios com o mínimo de interferência humana. É mais do que pensar em produção orgânica, é também pensar em produção ecológica.

Apesar de tudo, a pesquisadora não se entrega, e isso pode ser constatado na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line em abril de 2016. Com quase um século de vida, Ana aceita o convite para a entrevista por e-mail. Conta com a ajuda de Carin para lidar com a internet. É uma forma de seguir propagando suas ideias e semeando esperança. “A sociedade é parte do aspecto ambiental, mas insiste-se em separar isso nos cursos universitários. Esse conhecimento fragmentado, compartimentado, analista, especializado é o grande mal”, sentencia, ao mesmo tempo que provoca a pensar numa “educação ambiental de como a vida funciona”.

Ana Maria Primavesi é graduada em Agronomia pela Universidade Rural de Viena, com doutorado em Ciências Agronômicas. Em 2012, recebeu o prêmio mundial da agricultura orgânica pela Internacional Federation of Organic Agriculture Movements - IFOAM. Foi professora na Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, pesquisadora da Fundação Mokiti Okada, de São Paulo, e agricultora, pois praticou as técnicas da agroecologia na sua fazenda, em Itaí, São Paulo. Seus ensinamentos podem ser encontrados em cerca de 100 artigos científicos inéditos e 12 livros. Entre os trabalhos de maior influência estão: Manejo Ecológico do Solo: a agricultura em regiões tropicais (São Paulo: Nobel, 1984); Agroecologia: ecosfera, tecnosfera e agricultura (São Paulo: Nobel, 1997); Manejo ecológico de pragas e doenças: técnicas alternativas para a produção agropecuária e defesa do meio ambiente (São Paulo: Nobel, 1988); Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais (São Paulo: Nobel, 1984); Agricultura sustentável: manual do produtor rural (São Paulo: Nobel, 1992); Manejo ecológico de pragas e doenças: técnicas alternativas para a produção agropecuária e defesa do meio ambiente (São Paulo: Nobel, 1988); Cartilha do solo (São Paulo, Mokiti Okada 2006); Pergunte ao Solo e às Raízes (São Paulo: Nobel, 2014); A Convenção dos Ventos (São Paulo: Expressão Popular, 2016).

Acaba de ser lançada sua biografia por Virginia Knabben: Ana Maria Primavesi, histórias de vida e agroecologia (São Paulo: Expressão Popular, 2016).

Confira a entrevista:

IHU On-Line - Como descobriu a sua paixão pelas coisas simples do campo? E como isso a transformou em cientista?

Ana Maria Primavesi - Eu cresci em ambiente rural e meus pais eram muito ligados à atividade agropecuária e florestal (mãe: de canteiros de flores, horta doméstica, plantas medicinais; e pai: de lavouras, criação de gado e atividade florestal). Meu pai fazia melhoramento animal e assim precisava de método e observação. E na universidade nós éramos levados a realizar atividades de pesquisa. Fui treinada a observar, já em termos de sistema de produção, de forma holística. Depois tive dois professores que ensinaram a fazer um tipo de “exame clínico” com muita observação e visão integrada.   

IHU On-Line - Por que a senhora sempre andou tanto no campo quanto no laboratório?

Ana Maria Primavesi - A ciência progride quando sustentada pelos resultados de campo, que por sua vez realimentam as pesquisas científicas com dúvidas a resolver. Com o conhecimento da prática eu tinha muitas dúvidas que precisavam ser esclarecidas. Em realidade, a ciência existe para esclarecer os processos que ocorrem na natureza e que necessitamos conhecer para melhorar o seu manejo e fortalecimento nos sistemas de produção de alimentos e de água doce.

IHU On-Line - A senhora é uma das primeiras no Brasil a tratar do tema agricultura orgânica. Como a senhora descobriu esse tipo de produção? De onde veio sua inspiração?

Ana Maria Primavesi - Em realidade, no início, toda agricultura praticada era orgânica, e, até certo ponto, ecológica. Com ensinamentos de mestres na universidade, fui estimulada a olhar por essa perspectiva. Foram eles que me repassaram os princípios de como analisar o conjunto de fatores em uma atividade agrícola, indo diretamente para a procura das causas. E as causas deveriam ser procuradas com o solo (características de um solo observando na natureza o que resulta maior produtividade de fitomassa ), o comportamento das próprias plantas (sintomas de deficiências minerais, vigor e arquitetura das raízes) e das associações de plantas no campo.

Na realidade, era preciso observar a natureza, em como ela, a partir de ecossistemas primários (rochas aflorando; inóspitos à vida superior e à produção), construía os ecossistemas naturais clímax , com alta capacidade de manter vida e produção, e com todas as estruturas e os serviços ecossistêmicos desenvolvidos. A natureza utiliza as mesmas ferramentas para recuperar solos compactados, mortos biologicamente, abandonados, durante o pousio.

O segredo é a observação, isso eu aprendi com meus pais e alguns professores generalistas (sabem um pouco de tudo do todo). Os especialistas sabem muito de pouco do todo, que chega a ser nada, sabem só de algo específico, sem relação com o todo. Ficam com uma visão muito estreita, para a prática de campo. Esse é também um grande conflito que deveria ser resolvido amigavelmente.  

IHU On-Line - Quais os desafios que enfrentou quando começou a tratar do tema da agricultura orgânica? Quais resistências já foram vencidas e quais ainda persistem nos dias de hoje?

Ana Maria Primavesi - Tivemos certeza de nosso caminho quando meu marido conseguiu produzir um trigo tipo canadense (de altíssima qualidade) em um solo degradado da região de Sorocaba, em São Paulo. O trigo estava sem ferrugem, embora a variedade fosse altamente suscetível. Isso ocorreu após dois anos de práticas de recuperação biológica do solo com coquetel de adubos verdes fibrosos. Quando entramos para a vida acadêmica e docente em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, estávamos no auge da revolução verde que promovia uma agricultura nos moldes de “chão de fábrica”, em que as variabilidades de nossos solos eram uniformizadas com calagens e adubações NPK  pesadas. O objetivo era de atender as exigências de variedades híbridas que respondiam a doses elevadas de nitrogênio, utilizando-se para isso mecanização intensa e irrigação, e depois também herbicidas.

As terras eram uniformizadas. Os olhos d’água e pequenos cursos d’água eram simplesmente riscados do mapa, para facilitar a mecanização. Depois as árvores eram eliminadas para facilitar a administração a olho nu e a aviação agrícola. E, tudo que fosse relacionado à matéria orgânica e seu uso, era proibido. Identificamos que eram promovidos os aspectos físicos e químicos dos solos. Mas não os biológicos. Os biológicos do solo, não das plantas. Os biológicos que usam todo material orgânico, de onde retiram sua energia para agregar o solo e estabilizar os agregados e os macroporos, que são vitais para a saúde das plantas, pois garantem a entrada de água e de ar.

Assim, lutamos pela inclusão por esse aspecto biológico de solo. Isso porque sabíamos que precisávamos de um solo vivo para produzir com abundância e de forma mais barata, pois aumentava a eficiência dos insumos aplicados, que assim poderiam ser utilizados de maneira mais racional.

A luta feroz

Mas a revolução verde não contemplava o aspecto biológico. E a luta foi feroz. Mesmo iniciando como docentes da Universidade nessa visão holística de manejo do solo, da produtividade e da consideração do aspecto biológico por meio do primeiro curso de pós-graduação no Brasil, oficialmente aceito, a resposta deles foi: embora concordemos com esses conhecimentos, não poderemos incluí-los nos cursos regulares de graduação, pois precisamos treinar os estudantes para os concursos públicos, que não contemplam o aspecto biológico.

*Entrevista a Ana Primavesi pela IHU On-Line

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O glifosato é o maior escândalo sanitário da história", diz documentarista

Marie-Monique Robin, que dirigiu "O mundo segundo a Monsanto", critica modelo baseado em veneno e monocultura*
 
 
             Confira a íntegra do documentário ao final da entrevista  - Créditos: institutfrancais

A jornalista e documentarista francesa Marie-Monique Robin, autora do “O mundo segundo Monsanto”, esteve na cidade de Córdoba, no centro da Argentina, e visitou o acampamento de Malvinas Argentina, que resiste à instalação de uma empresa da Monsanto. Ela também conheceu o grupo de mães do bairro Ituzaingó, que lutam por justiça em relação aos casos de câncer na região que são atribuídos às fumigações.
Durante a sua estadia, Marie apresentou seu filme “Agroecologia: as coletas do futuro”, participou de uma roda de conversa na Universidade de Córdoba e declarou como testemunha da megacausa “La Perla”, em que se investigam delitos de lesa-humanidade durante a última ditadura na Argentina.
Em entrevista ao diário La Mañana, a jornalista opinou sobre o “modelo sojero” [termo usado para denominar o modelo de produção centrado no monocultivo de soja] e os impactos do uso de agrotóxicos na sociedade.
La Mañana - Após a visita ao acampamento Malvinas e o encontro com as Mães de Ituzaingó, que sensações você leva de sua visita a Córdoba?
Marie-Monique Robin - O que vejo é que a sociedade civil, os pesquisadores, os médicos e os cidadãos estão acordando da letargia que os acompanhava há 10 anos, quando vim fazer um documentário sobre o avanço da soja na Argentina. Naquele momento, ninguém se preocupava muito com o que estava se passando. Temos que levar em conta que em 2005, na Argentina, o cultivo de soja ocupava 16 milhões hectares. Hoje são 21 milhões [de hectares].
Quando estive com os vizinhos do bairro Malvinas, e as mulheres me diziam que tinham feito circular o documentário “A vida segundo a Monsanto”, me emocionei. Agora, acho que a luta tem que continuar. Gera-me muita dor olhar o estado em que se encontra o país, onde a poluição é muito forte e o glifosato está em todos os lados: na água, na chuva, no solo, nos alimentos…
Essa tomada de consciência de que está falando se aprofunda com a declaração da OMS [Organização Mundial de Saúde] de que o glifosato é cancerígeno…
A classificação da Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer (Iarc), que depende da OMS, é muito importante. Muitos não compreendem essa classificação, mas há três grupos, e o glifosato está no grupo 2. Significa que todos os estudos realizados em animais demonstraram que ele é cancerígeno. Isso é muito sério.
Normalmente, os governos proibiriam sua utilização. Atualmente, estou preparando um novo documentário sobre o glifosato e, entre suas características, ele é cancerígeno. Além disso, é um perturbador endógeno e atua como um hormônio. Por isso, há tantos casos de crianças que nascem com malformações congênitas e tantos abortos espontâneos. E, por último, o glifosato absorve os metais do corpo. Ou seja, por um lado te intoxica com metais pesados e, por outro, absorve os bons metais, como o ferro, que precisamos para ajudar a aumentar a imunidade do corpo.
Por isso, penso (e não sou a única) que o glifosato é o maior escândalo sanitário de toda a história da indústria química. Não é comum que um agrotóxico tenha todos esses efeitos. Depois da decisão da OMS, tomou-se a decisão de proibir sua venda livre na França, porque se utilizava glifosato até no quintal das casas.
É uma primeira etapa, mas estamos aguardando que se proíba absolutamente (como se fiz com o DDT), porque ele atua até em doses muito baixas. Há que erradicá-lo, porque não se pode controlar nem dosar.
A Argentina está preparada para dar esse passo e proibi-lo num futuro próximo?
As pessoas têm a consciência de que o modelo “sojero” e os transgênicos são um problema à saúde pública e à ecologia. Falta os governos criarem políticas ao respeito e, para isso, há que repensar as políticas de agricultura.
Dificilmente o glifosato será proibido de um dia para o outro. De todo jeito, encontrei com vários “sojeros” [produtores de soja] em Rosário que já não querem utilizá-lo, porque têm problemas com o mato resistente ao glifosato.
Eles também estão preocupados com a saúde, mas apontam que, para isso, faz falta apoio do setor público. Nos Estados Unidos, foi criada uma empresa para apoiar os “sojeros” que querem deixar os transgênicos. Será preciso aprender tudo de novo.
Por 20 anos, a única coisa que se fez foi fumigar, semear e coletar. Aliás, a maioria das pessoas que hoje estão vinculadas aos cultivos de soja não é formada por agricultores, mas empresários que não moram onde se fumigam. Quem tem que dar o primeiro passo para pôr um freio às fumigações com agrotóxicos: a Justiça ou o governo?
Os dois. Ambos são importantes porque é preciso acabar com o modelo. Tudo é importante: a pressão da sociedade civil, a Justiça que toma medidas para convencer os políticos que este modelo é um suicídio coletivo. É preciso pensar não só a curto prazo, mas também ao médio e longo prazo, porque neste momento o que está em risco é a soberania alimentar da Argentina. Hoje temos produtos de exportação que servem para alimentar animais de outros países, e não pessoas. Isso é vergonhoso.
Ultimamente surgiu uma movimentação de pequenos produtores que fomentam a alimentação orgânica, ainda que seja difícil ter acesso a eles e que o custo seja elevado.
Há muitas maneiras de ter acesso aos alimentos orgânicos. É uma questão de organização. Sempre falo que as alternativas existem, mas o consumidor tem um papel muito importante: tem que ser mais consciente do que está comendo e promover as hortas orgânicas, domiciliarias e comunitárias.
Esse é um movimento mundial que hoje em dia está crescendo. Na França, fomenta-se o cultivo em tetos e em terraços. Na Argentina, há um exemplo muito bom na cidade de Rosário [província de Santa Fé], mas o que vejo que aqui está em falta um Sistema de Certificação. Falam-me das feiras francas, mas a gente não sabe se efetivamente são alimentos orgânicos ou não. Por isso, é preciso trabalhar na certificação. 
Tradução: Maria Julia Gimenez
                   Assista o documentário: "O Mundo segundo a Monsanto" 
*Disponível em:

quinta-feira, 3 de março de 2016

Lançado novo livro sobre Extensão Rural e Agroecologia



Acaba de ser publicado o livro intitulado EXTENSÃO RURAL E AGROECOLOGIA: para um novo desenvolvimento rural, necessário e possível, organizado pelo doutor Francisco Roberto Caporal, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. O livro, com 503 páginas, está organizado em cinco capítulos, cujos textos foram escritos pelo Organizador Francisco Caporal e/ou em parceria com outros autores: José Antônio Costabeber (in memoriam), Adriana Calderan Gregolin, Daiane Soares Caporal, Gervásio Paulus e Ladjane de Fátima Ramos.

O primeiro capítulo, trata sobre Extensão Rural e é composto por oito artigos, escritos em diferentes épocas e contextos históricos da Assistência Técnica e Extensão Rural no Brasil e no Rio Grande do Sul. Tais artigos versam sobre diferentes temas, que vão desde a defesa histórica da extensão rural no Brasil, a experiência inovadora da EMATER/RS na perspectiva agroecológica, indo até reflexões mais atuais, do período pós-Pnater de 2003. 

O segundo capítulo, trata sobre Extensão Rural e Reforma Agrária e traz dois artigos sobre a questão tecnológica nos assentamentos de reforma agrária e sobre o papel da Ater nos assentamentos. O terceiro capítulo, intitulado Agroecologia, está formado por nove artigos que abordam diferentes aspectos da Agroecologia. O quarto capítulo, sobre Desenvolvimento Rural, inclui pequenos textos para reflexão e provocação sobre aspectos que dizem respeito ao desenvolvimento rural em geral. O capítulo cinco, sobre Problemas da Agricultura Convencional, também apresenta textos curtos e provocativos sobre impactos do modelo de agricultura industrial que se implantou no Brasil.


O livro pode ser adquirido, pelo valor de R$ 40,00 junto ao Núcleo de Agroecologia e Campesinato - NAC, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, no térreo do Departamento de Educação.
Os interessados em adquirir o livro pelos correios, podem solicitar pelo email ladjane.caporal@gmail.com, informando Endereço e CEP. 

Posteriormente será informado ao interessado o valor total, R$ 40,00 mais o valor  de R$ 8,50 da postagem.  Este valor deve ser depositado na conta: Banco do Brasil, Agência: 3504-1 -  C/C nº 32248-2 . Feito o depósito, deve ser enviado comprovante para o mesmo email. 

Na compra de 10 exemplares haverá desconto de 10%.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Seminário Regional sobre Agroecologia na América Latina e Caribe

Promovido pela FAO, em parceria com várias organizações civis e instituições públicas, foi realizado em Brasília, de 24 a 26 de junho de 2015, o Seminário Regional sobre Agroecologia na América Latina e Caribe. O documento síntese do evento (Informe Final, FAO-Roma, 2015) está disponível AQUI.

Abaixo, transcrevemos o Anexo 2:

Recomendaciones finales del Seminario regional sobre agroecología en América Latina y el Caribe


La agroecología en la región viene siendo construida en la práctica desde hace décadas por los movimientos sociales de agricultores y agricultoras, campesinos/as, comunidades tradicionales, pueblos indígenas y originarios, pescadores y pescadoras artesanales, pastoras y pastores, colectores e colectoras. Tiene una fuerte base científica y recibe cada vez más apoyo de los gobiernos por medio de nuevas políticas públicas. Las prácticas y principios agroecológicos garantizan la soberanía y la seguridad alimentaria y fortalecen la agricultura familiar.


Como resultado del Simposio Internacional sobre Agroecología para Seguridad Alimentaria organizado en septiembre de 2014 por la FAO en el marco del Año Internacional de la Agricultura Familiar, se realizó en Brasilia, del 24 al 26 de junio de 2015, el Seminario Regional sobre Agroecología en América Latina y el Caribe. en el marco del plan de Acción 2015 del Grupo de Trabajo ad hoc sobre Agricultura Familiar y desarrollo Rural de la CeLAC y la declaración Ministerial de la CeLAC sobre Agricultura Familiar, aprobada en noviembre de 2014, en Brasilia, Brasil, y ratificada en la Tercera Cumbre de Jefes de estado y de Gobierno (San José, Costa Rica, enero, 2015), declararon "apoyo para la convocatoria de un evento regional sobre agroecología para fomentar el intercambio de experiencias y la promoción de políticas de desarrollo sustentable." en el marco de la ReAF, en la xx Reunión especializada sobre Agricultura Familiar del MeRCOSUR (Caracas, venezuela, diciembre de 2013) se incorporó el tema de la agroecología en la agenda del Grupo Temático para Adaptación a los Cambios Climáticos y Manejo y Gestión de Riesgos.


Tomando en consideración la declaración de Nyeleni-Mali sobre Agroecología elaborada por los movimientos sociales de agricultores y agricultoras, campesinos/as, comunidades tradicionales, pueblos indígenas y originarios, pescadores y pescadoras artesanales, pastores y pastoras, colectores y colectoras y jóvenes. Las y los participantes del seminario de los movimientos sociales, académicos, representantes de entidades públicas de los países de América Latina y del Caribe e invitados de otras regiones, reunidos/as en este Seminario instan a los Gobiernos de la Región, a la CeLAC, a la FAO, a ReAF/ MeRCOSUR y otros organismos intergubernamentales e internacionales relevantes, a:


1. Promover políticas públicas de fomento a la agroecología y la soberanía alimentaria, definidas, ejecutadas y monitoreadas con activa participación de los movimientos sociales y de la sociedad civil organizada, asegurando el presupuesto necesario para su implementación.

2. Formular y ejecutar marcos legales y reglamentos favorables al avance de la agroecología para alcanzar la soberanía alimentaria.

3. Asegurar la función social de la tierra y del agua por medio de la reforma agraria, de políticas de tenencia de tierras y que garanticen los derechos territoriales de los pueblos indígenas, originarios y pueblos y comunidades tradicionales.

4. Promover la producción de alimentos adecuados y saludables y la soberanía alimentaria de la región por medio de la agroecología, reconociendo que estos sistemas permiten un uso más sustentable de la tierra, del agua y de la energía.

5. Reconocer y valorizar los conocimientos ancestrales, tradicionales, saberes locales y las identidades culturales como fundamento de la agroecología. Y que los institutos públicos de investigación respeten y valoricen los saberes tradicionales promoviendo el diálogo de saberes en sus programas de investigación participativa.

6. Fomentar dinámicas territoriales de innovación social y tecnológica por medio de la creación y/o fortalecimiento de núcleos de agroecología y en instituciones de carácter interdisciplinar e intersectorial, con capacidad de articular procesos de educación, investigación y aprendizaje.

7. Desarrollar políticas específicas que promuevan la organización productiva de las mujeres, apoyando sus iniciativas agroecológicas, fortaleciendo la superación de los obstáculos que ellas enfrentan, la sobrecarga de trabajo, la despenalización apuntando al reconocimiento de su papel histórico para la agroecología y para la soberanía alimentaria.

8. Reconocer y fomentar el rol activo de las familias y comunidades, incluyendo mujeres y jóvenes, como tutores de la biodiversidad, especialmente semillas y razas criollas. Y garantizar que los bancos públicos de germoplasma restituyan a los movimientos sociales sus recursos genéticos conectando la discusión sobre soberanía alimentaria con la discusión de protección de las semillas.

9. Construir una red regional en América Latina (plataforma de gestión mixta entre los gobiernos y movimientos sociales) de intercambio, de prácticas y de informaciones sobre agroecología que favorezca el diálogo entre academia, gobiernos y movimientos sociales.

10. Crear instrumentos que permitan la reciprocidad de los sistemas participativos de garantía entre los países de la región latino-americana promoviendo las relaciones entre productor y consumidor.

11. Incluir la agroecología como tema permanente en la agenda del grupo de trabajo sobre agricultura familiar y desarrollo rural de la CeLAC, ampliando la participación de los movimientos sociales y de la sociedad civil organizada y academia en ese GT, con apoyo de la FAO.

12. Crear un programa de intercambio sobre agroecología y semillas a partir del GT de Agricultura familiar y desarrollo rural de la CeLAC.

13. Proponer la creación de un grupo de trabajo específico en la ReAF sobre agroecología y ampliar la discusión de registros específicos de la agricultura familiar incluyendo la agroecología.

14. Crear condiciones para restringir las prácticas de monocultivos, uso de agro tóxicos, y concentración de la tierra a fin de propiciar el escalonamiento de la producción campesina de base agroecológica en la región latino-americana y caribe.

15. Apoyar iniciativas de educación formal y no formal, como las escuelas campesinas de agroecología elevando la escolaridad en el ámbito rural por medio de la formación profesional de jóvenes del campo.

16. Reconocer el papel multifuncional que la agroecología de base campesina desempeña en preservar suelos, aguas, biodiversidad y proporcionar otras funciones eco sistémicas,

garantizando la preservación ambiental de forma socialmente inclusiva y económicamente justa.

17. Asumir que los sistemas agroecológicos son más resistentes a los cambios climáticos y solicitar que se asignen recursos para el desarrollo de la agroecología, como parte de políticas climáticas que garanticen la soberanía alimentaria de los pueblos.

18. Crear mecanismos para promover la cooperación sur-sur en el tema de la agroecología en colaboración con FAO, ReAF y otros organismos internacionales y sub-regionales.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O pior desastre ambiental do Brasil conta com patrocínio oficial



Francisco Roberto Caporal


O título poderia dar a entender que vou falar do desastre de Mariana, em Minas Gerais. Reconheço, com pesar, as tristes perdas de vidas (que temos que lamentar, muito!) e o enorme impacto ambiental que continuará causando danos por anos afora. Junto com isso ainda temos que ter o desprazer de ouvir das “autoridades brasileiras” que em poucos anos tudo estará “melhor do que era” e que o Rio Doce estará “recuperado”. Ou pior, ouvir o presidente da Vale do Rio Doce dizer que em 10 anos teremos de volta as condições ambientais que foram destruíram. 

Estas especulações, oficiais ou não, só podem nos fazer rir (ou chorar), porque mostram a falta de preparo de quem tem responsabilidade direta pelo tema. Ao contrário, especialistas afirmam que não haverá recuperação dos rios atingidos, em especial do Rio Doce, em menos de 50 anos, isto é, uma geração. Quero dizer com isso, que minhas filhas, que nunca foram ao Rio Doce, jamais o conhecerão. Isto dá uma ideia do tamanho da tragédia. Mas não foram só os rios. Perdemos mangues, grandes áreas de cobertura vegetal e outras áreas que prestavam importantes serviços ambientais, hoje contaminadas ou destruídas definitivamente. Com isso, talvez tenhamos perdido, também, centenas de espécies. 

O desastre mostra, ainda, a incapacidade dos ministérios envolvidos na fiscalização e de seus departamentos, institutos, etc, que se mostraram ineficientes para gerenciar e prevenir riscos daquela monta e de entender o tamanho dos impactos. E tem gente tão despreparada tratando do assunto, que já precificaram o desastre. Imediatamente, as empresas responsáveis devem depositar 2 bilhões de reais, mas “acham” que para resolver o problema todo, o preço pode chegar a 20 bilhões. De onde estas “especialidades” tiraram estes valores? De alguma cartola, possivelmente. 


Este é mais um exemplo do lado catastrófico da gestão da natureza no Brasil. Além disso, cansa a paciência de qualquer um escutar e ler na grande mídia, repetidamente e acriticamente, a exortação desse como sendo o maior desastre ambiental do Brasil. Por favor, nos poupem! Mas não era disso que eu ia falar. O título deste texto se refere ao que eu considero, de fato, O MAIOR DESASTRE AMBIENTAL DO BRASIL – A DESTRUIÇÃO DO BIOMA CERRADO.
 
Todos nossos biomas são objeto da ação destrutiva gerada pelo modelo de desenvolvimento, de produção e de consumo que adotamos. Entretanto, o caso do Cerrado é emblemático, pela fúria com que vem sendo destruído em poucos anos e pela naturalização desse processo destrutivo como algo necessário para o “progresso”.

O Cerrado brasileiro ocupa cerca de 24% do território nacional, algo como 2.047.067 km². É o segundo maior bioma do Brasil e é a Savana com maior biodiversidade do planeta. Não bastasse, é considerado “berçário” de cerca de 20 mil nascentes, logo, importante fonte de águas doces para 12 regiões hidrográficas, cabendo destacar que é de suma importância para o abastecimento das bacias do Amazonas e do Pantanal e que vem do cerrado cerca de 90% das águas que correm para a bacia do São Francisco. Trata-se, portanto, de uma “cisterna” que abastece cerca de 1.500 cidades, de 11 estados brasileiros.

Segundo algumas fontes, o Cerrado abriga (ou abrigava) nada menos do que 12.000 espécies de plantas, 199 espécies de mamíferos, 837 espécies de aves, 180 espécies de répteis, 150 espécies de anfíbios, 1200 espécies de peixes e 67000 espécies de invertebrados. Considerando que no Cerrado temos apenas 2,85% do bioma como Unidade de Conservação Permanente Integral (UCPI) e somente 5,6% do território como Unidade de Conservação de Uso Sustentável e que muitas das espécies acima referidas têm seus habitats fora destas áreas de preservação é óbvio afirmar que os riscos de extinção são eminentes. Só não vê quem não quer ver, ou tem outros interesses que não a proteção da natureza. 

Pois bem, dias atrás a ministra do MEIO ambiente (parece que é só MEIO mesmo) festejou que só metade do Cerrado foi destruído até agora. Pode? Outro ministro, na ocasião o da agricultura, em março de 2011, chegou a dizer à imprensa que a expansão da fronteira agrícola nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste da Bahia “não teria impacto ambiental nenhum”, pois “lá não tem nada, só cerrado”.

Isso nos dá uma ideia do descaso das autoridades para com os impactos que o modelo de desenvolvimento rural/agrícola brasileiro vem causando neste bioma. Em geral, quando se fala de desmatamento, as autoridades se referem à Amazônia, pois ela está aos olhos do mundo, mas esquecem dos demais biomas, que estão sendo objeto de grande pilhagem ambiental. Enquanto isso, em 40 anos, cerca de 50% do Cerrado já foi destruído. Talvez não haja exemplo igual no mundo. 

Há registros da presença de populações tradicionais no Cerrado que datam de cerca de 15 mil anos, não obstante, a destruição mesmo começou nos anos 50 e se tornou diabólica a partir dos anos 60-70. Mas não foi sem o apoio governamental que se consolidou este processo danoso de destruição. Pois a ocupação não teria tido o mesmo rumo e, talvez, o mesmo poder destrutivo se não fosse a oferta de crédito rural subsidiado, assistência técnica gratuita, ensino de ciências agrárias dominado pelo modelo da Revolução Verde e as pesquisas científicas de a Embrapa. Tudo dinheiro público para impulsar a destruição.

A maioria dos políticos e cientistas se orgulham por terem criado as condições de ocupar o Cerrado e se jaculam por ser o bioma o segundo maior produtor agrícola/pecuário do país. A pergunta que não quer calar é a seguinte: para produzir o que? Para quem?  E a que custo ambiental e social?

Assim como ocorreram mortes causadas pelo desastre de Mariana, no processo de ocupação/destruição do Cerrado ela ocorrem em proporções MUITO MAIORES. Os registros de mortes de indígenas, camponeses, pequenos agricultores que lutam por suas terras estão por toda parte. Também é enorme e frequentemente divulgada a expulsão destes povos das suas terras, pelo avanço dos produtores de cana-de-açúcar, soja, algodão, milho, eucalipto e de pecuária extensiva. Tudo isso, sob o olhar das autoridades. O mesmo ocorre com os geraizeiros, quilombolas, vazanteiros, sertanejos, ribeirinhos e outros povos tradicionais. Há maior contradição do que dar o Bolsa Família e ao mesmo tempo apoiar um modelo que os expulsa a gente do campo. 

Os subsídios ao crédito, as pesquisas de órgão oficiais e a assistência técnica gratuita, continuam. Enquanto isso, a atual ministra da agricultura festeja a famosa nova região de fronteira agrícola (MATOPIBA) e, desta forma, a destruição com apoio oficial se aprofundará.

Há municípios no Cerrado que, segundo dados oficiais, chegaram a desmatar mais de 90% de seus territórios. Há pesquisas que mostram o enorme assoreamento dos rios devidos aos processos erosivos e perda das matas ciliares. Os lençóis freáticos estão baixando. Fontes estão secando. A contaminação por agroquímicos chega às raias do absurdo. Há pesquisas que mostram a presença de agrotóxicos na água da chuva, em poços de escolas e até no leite materno. Isso tudo é o que se chama de progresso no Cerrado. Enquanto poucos enriquecem e o governo junta algo para seu balanço de pagamentos (dinheiro afinal malgastado), todos os demais brasileiros têm que pagar a conta e as futuras gerações perdem ainda mais.

Quando vamos parar de financiar a destruição do Cerrado e tudo de danoso que está associado a ela. Será que a sociedade brasileira não deveria ser consultada para dizer se quer ou não que este modelo continue.

Segundo os últimos informes a que tive acesso, em torno de 57% do Cerrado ainda está em pé. Quer dizer, cerca de 1 MILHÃO de Km² já foram destruídos em cerca de 40 anos. Grande parte do que resta está muito dispersa, em fragmentos. Talvez menos de 20 a 30% ainda esteja intacto. Quem sabe, salvar estes 30%? Segundo alguns estudiosos do Cerrado, se continuar tudo como anda acontecendo, em 2030 o Cerrado deixará de existir como tal. Quer dizer, o bioma Cerrado deixará de ser estudado em biologia, geografia ou outras disciplinas. Passará a ser estudado na disciplina de história. Era uma vez...

É preciso fazer algo, denunciar, lutar. Mas o que não pode continuar, mesmo, é o dinheiro dos impostos pagos pela sociedade continuar sendo usado para financiar este que é o MAIOR DESASTRE AMBIENTAL do Brasil.

Se os governos colocassem todos os recursos que financiam a destruição socioambiental em curso no Cerrado, para apoiar um grande processo de transição agroecológica, possivelmente ainda poderíamos recuperar parte do estrago já feito e avançar na direção de um processo sócioambientalmente mais equilibrado. As futuras gerações agradeceriam muito.