quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ecologia Humana

Joan Martínez-Alier*
Universidad Autónoma de Barcelona

Martínez-Alier argumenta que a ecologia humana não pode ser explicada da mesma maneira que a das plantas ou outros animais, pois é necessário referir-se às ciências naturais e sociais ao mesmo tempo. Uma combinação apropriada dos dois assuntos produz uma abordagem que o utiliza como uma oportunidade para a educação transdisciplinar.

É fácil lembrar quanto da energia que consumimos vem dos alimentos que comemos. Basta perguntar a alguém que está tentando perder peso. Uma pessoa média consome cerca de 2.000 a 2.500 kcal por dia dessa maneira. Então, considerando que 2400 kcal equivalem a 10 MJ (megajoules), podemos calcular o consumo anual médio de energia endossomática (para usar a terminologia de Alfred Lotka) em 3,6 GJ (gigajoules). Quando se trata de exossomáticos, no entanto, os seres humanos não têm nada em sua programação biológica para impedi-los de aumentar seu consumo de energia para 30 GJ, 100 GJ ou 500 GJ por ano. Isso depende do nosso nível de renda econômica e de nossas preferências. Desenvolvemos uma série de ferramentas exossomáticas (carros, aviões, aquecimento central, ar condicionado e até mesmo o computador no qual escrevo estas linhas) que nos permitem aumentar nosso uso de energia.

Na civilização moderna de hoje, nossa energia é em grande parte retirada não da fotossíntese atual (que continua sendo a fonte de calorias para consumo endossomático), mas de depósitos de combustíveis fósseis estabelecidos há milhões de anos. Essa energia só pode ser usada uma vez. E temos que extraí-lo onde quer que esteja: na floresta amazônica, ou no Delta do Níger, que é o que a Chevron, a Shell, a Repsol e outras empresas privadas ou estatais fazem. A ecologia humana está, portanto, ligada a conflitos sobre a extração do natural. Estudar a ecologia humana não precisa ser deprimente. Muitas tendências são negativas, mas nem todas elas são recursos e disposição de resíduos, como as quantidades excessivas de dióxido de carbono que estão sendo produzidas, excedendo a capacidade oceânica e a atmosfera de absorvê-lo e, consequentemente, modificando um pouco sua composição.

A Tabela 1 mostra uma representação simplificada do metabolismo social ao longo da história humana. Os dois primeiros estágios basearam-se na fotossíntese atual (caçadores-coletores e fazendeiros), enquanto o terceiro estágio, que é onde grande parte do mundo é hoje, usa a “Floresta Subterrânea”, como o historiador Rolf Peter Sieferle chamou. Em outras palavras, carvão, petróleo e gás. A mudança de sociedades de caçadores para sociedades agrárias é marcada na Tabela 1 pelo uso de animais domésticos para cultivar o solo e para o transporte. Isso explica o aumento de energia e materiais usados ​​em economias ainda baseadas na energia solar atual (e não a energia solar do passado, encerrada em combustíveis fósseis). No entanto, nem todas as sociedades agrárias usaram grandes animais domésticos.


Os números da densidade populacional são aproximados. Alguns países ricos têm baixas densidades (por exemplo, América e Austrália), e alguns países agrícolas que até recentemente eram pobres têm densidades semelhantes às da Europa Ocidental ou do Japão (por exemplo, Índia). Mas uma economia agrícola tradicional, por mais intensiva que seja, não pode sustentar mais de cinco ou seis pessoas por hectare. O atual processo mundial de urbanização é um produto da industrialização movida a combustíveis fósseis. Isso é algo que separa a ecologia humana da de outras criaturas.


Educação ambiental: entre valores e ciências 

A ecologia humana não pode ser explicada apenas nos mesmos termos que a das plantas e outros animais. Precisamos nos voltar para as ciências naturais e sociais ao mesmo tempo. 

Há especialistas que explicam como a educação ambiental deve ser ministrada nas escolas secundárias. Eu não concordo inteiramente com eles porque freqüentemente eles enfatizam demais os valores. Isto é, eles tentam fazer com que os alunos vejam e acreditem que todas as criaturas vivas têm o direito de serem respeitadas; que devemos levar as gerações futuras em conta; que precisamos de uma ética ambiental baseada na consciência de que o planeta Terra é finito; que a população humana já se expandiu enormemente; e que, por nossa arrogância, causamos muitas espécies que existiam antes de desaparecermos. Todos esses argumentos são válidos quando se trata de disseminar valores sociais verdes ou ambientais, e estes são atraentes para muitos jovens. Outros, ou talvez os mesmos jovens, mas num momento diferente, acham que, se não houver Espécies suficientes, estão desaparecendo a uma taxa que talvez seja mil vezes mais rápida que o normal, sem que haja tempo de catalogá-las para que possamos agora o que foi perdido para todos, estes devem pelo menos ser suficientes para eles; que quanto maior o carro ou a moto, melhor; que não faz sentido pensar nas gerações futuras porque talvez o mundo acabe mais cedo do que você imagina; e que os animais plantas e microorganismos estão na terra para atender às necessidades humanas. 

Os tópicos ambientais têm enormes virtudes para fins de ensino: eles tornam possível romper a divisão tradicional entre ciências sociais e ciências naturais. Na educação ambiental, essa visão transversal não deve ser a desculpa para apenas uma ou duas aulas extras durante o ano letivo, mas deve fazer parte do ensino diário, de modo que as ciências sociais e naturais sejam ensinadas em conjunto. Por exemplo, a fotossíntese é explicada aos alunos entre as idades de 10 e 12 anos. Na primavera é bom ver seus resultados na maneira como as plantas crescem capturando dióxido de carbono da atmosfera e liberando oxigênio. Mas seria importante na mesma classe explicar como a fotossíntese também sustenta a descoberta da agricultura em várias partes do mundo há cerca de oito ou dez mil anos, cujo objetivo era precisamente explorar a fotossíntese para atender às necessidades nutricionais humanas e ao mesmo tempo, ensinam sobre as religiões de adoração do sol que surgiram em algumas culturas. E a lição do dia seguinte poderia explicar que estamos atualmente descarregando tanto dióxido de carbono na atmosfera que estamos aumentando o efeito estufa. E daí continuamos a falar sobre a política internacional do petróleo e o pico Hubbert. 

Quando chegar a hora de falar sobre unidades de energia, valeria a pena abordar o assunto controverso das usinas nucleares, as turbinas eólicas que estão aparecendo em todos os lugares, ou quanta energia elas produzem, quantos joules, quantas calorias, como muitos quilowatts-hora que eles fornecerão. E se o assunto é ácido sulfúrico, a aula de química deve ser transformada em uma aula de ciências sociais falando sobre a produção (involuntária) de dióxido de enxofre por usinas termoelétricas a carvão e fundições de metal, o que explica a chuva ácida e seus efeitos nocivos. 

As mesmas barreiras também devem ser quebradas nas lições de história. A história não é uma linha de discipulado limitada às artes e ciências sociais: o universo, a evolução biológica e a geologia também são história. Além disso, a história humana não pode ser entendida sem falar em evolução biológica, energia, doenças, bactérias ou vírus. 

A combinação apropriada de aspectos sociais e naturais quando se estuda a ecologia humana pode produzir uma abordagem à educação ambiental que não se baseia apenas em valores sociais, mas é ensinada de maneira transdisciplinar. 


Na primavera, é bom ver como as plantas crescem capturando dióxido de carbono da atmosfera e liberando oxigênio.


O que os economistas não nos dizem 

Estudar a ecologia humana não precisa ser deprimente. Muitas tendências são negativas, mas nem todas elas. O primeiro fato positivo, olhando para um horizonte de 30 anos, é o fim do crescimento populacional. Enquanto no século 20 a população humana quadruplicou, no século 21 provavelmente atingirá o pico de 8,5 bilhões em 2045 e depois diminuirá um pouco. Isso causará alguns problemas locais, mas será uma excelente notícia para a mudança climática e conservação da biodiversidade. Como sabemos desde os debates entre Paul Ehrlich e Barry Commoner, há 40 anos, o impacto ambiental não depende apenas da densidade populacional, mas também da renda per capita e da tecnologia. Os pobres do mundo precisam aumentar sua renda, e muitos deles (na Índia, China e Indonésia) estão conseguindo fazê-lo, mas as tecnologias que estão usando atualmente são prejudiciais ao meio ambiente. A industrialização na China e na Índia é intensiva em carvão. Para a população mundial atingir o pico e depois começar a cair é, portanto, uma coisa boa. 

Outro desenvolvimento positivo é a formação de alianças entre o florescente movimento de justiça ambiental no Sul e o pequeno movimento de decrescimento em certos países ricos, como França e Itália, e também na Catalunha, onde em março de 2010 organizamos a Segunda Conferência Internacional sobre Economia. Decrescimento para a Sustentabilidade Ecológica (www.degrowth.eu). Embora o movimento de decrescimento europeu tenha dificuldade em ganhar as eleições parlamentares ou se transformar em uma política européia oficial (onde o “desenvolvimento sustentável” foi substituído em meio à confusão burocrática pelo “crescimento verde”), esse movimento social de decrescimento, no entanto, reflete a perda de apetite na Europa por um modelo de crescimento que sabemos levar a crises econômicas, que dependem de níveis impossíveis de endividamento, que carece de solidariedade, é destrutivo e incapaz de aumentar os níveis de felicidade ou alegria de viver aumentando nossos níveis de crescimento. renda acima da média atual. Por que crescer e crescer, como disse o presidente da comissão europeia Sicco Mansholt em 1972, depois de ler o relatório de Meadows et al. ao Clube de Roma naquele ano? 

Apesar da resistência psicológica e institucional dos economistas que se defendem contra o ambientalismo, a crítica que começou nos anos 1960 e no início dos anos 1970 com o relatório do Clube de Roma em 1972, os grandes livros de Nicholas Georgescu-Roegen e HT Odum em 1971 e outras contribuições desta época de escritores europeus como Jacques Ellul, Cornélio Castoriadis, Ivan Illich, André Gorz e Fritz Schumacher, estão todos começando a fazer incursões. Há uma clara continuidade das críticas, em 1968-69, dos economistas protocientíficos Kenneth Boulding, Robert Ayres e Herman Daly, às posições atuais em favor do suave decrescimento econômico nos países ricos. 

Assim, dentro do pessimismo justificado por algumas das tendências atuais, às quais podemos acrescentar a incapacidade de alcançar acordos internacionais efetivos sobre mudança climática ou conservação da biodiversidade, eu acho que demografia e pensamento ambientalista e ativismo (e a crescente perda de credibilidade da economia) permitem-nos ver as perspectivas para as próximas décadas de forma positiva. 

Como James Gustave Speth argumentou recentemente (“Rumo a uma nova economia e uma nova política”, Solutions, 2010), as razões para pedir uma mudança fundamental nas tendências atuais no uso de energia e materiais, a destruição da biodiversidade, são que se Continuamos como no presente, a mudança climática (como estamos adicionando duas ppm de CO2 atmosfera por ano), e o desaparecimento de muitas espécies, é uma certeza. 

No ritmo atual, como a energia de combustíveis fósseis só pode ser usada uma vez, e como apenas uma fração dos materiais que usamos são reciclados, temos que procurá-los em locais cada vez mais extremos, destruindo a biodiversidade e vidas humanas no caminho . Esses locais são Se o crescimento depender de tecnologias semelhantes às atuais, o resultado será o empobrecimento das gerações futuras, por vezes, o lar de grupos tribais ou outras pessoas que protestam e são os verdadeiros protagonistas dos movimentos de justiça ambiental, embora esses movimentos também existam. mas com menos força, nos países avançados do mundo. 

Em seu artigo, Speth diz (assim como a Avaliação Ecossistêmica do Milênio) que metade das áreas úmidas do mundo e um terço de seus mangues desapareceram e a disponibilidade de muitas espécies de peixes está diminuindo. Um quinto do coral dos oceanos foi perdido. As florestas estão se expandindo nos países da Europa e da América do Norte (a lenha foi substituída por combustíveis fósseis), mas a destruição das florestas tropicais continua a uma taxa de meio hectare por segundo. As espécies estão desaparecendo a uma velocidade talvez mil vezes mais rápida que o normal, sem que haja tempo de catalogá-las para saber o que foi perdido. Há POPs (poluentes orgânicos persistentes) espalhados pelo globo, até mesmo no gelo polar, e nossa corrente sanguínea é carregada de produtos químicos tóxicos, mesmo que nunca tenhamos trabalhado em uma indústria que os use. A apropriação humana da produção primária líquida de biomassa (HANPP) talvez tenha atingido 40% e continua a aumentar à medida que as árvores são plantadas para papel, culturas plantadas para produzir biocombustíveis ou alimentos para o gado, empurrando outras espécies para um canto. 

E quase não resta um rio no mundo que não tenha sido represado. 


O paradoxo do otimismo 

A economia tradicional não reconhece que todos esses impactos representam custos que deveriam ser deduzidos do PIB (se soubéssemos como medi-los em termos monetários), mas ter fé na capacidade de crescimento econômico para remediar os danos. Essa fé metafísica no crescimento justifica em seus olhos a desvalorização do futuro, porque eles acreditam que, graças aos investimentos e à mudança tecnológica de hoje, nossos descendentes serão mais ricos e a satisfação adicional que obtêm do aumento do consumo será menor do que a nossa. A hipótese de crescimento contínuo justifica nosso uso atual de recursos exauríveis e a geração de mais poluição, pois é assumido que nossos descendentes serão mais ricos e poderão facilmente enfrentar esses inconvenientes. A verdade, no entanto, é que o crescimento, se for produzido com tecnologias semelhantes às que temos hoje, vai empobrecer as futuras gerações, porque elas terão um ambiente degradado e uma qualidade de vida mais baixa. 

Fé no crescimento econômico leva a uma desvalorização do futuro e, portanto, produz uma ética, se é que podemos chamá-lo assim, de Carpe Diem, aproveitando o presente, embora o legado que deixamos seja um mundo marcado pela perda de biodiversidade, resíduos nucleares e mudanças climáticas ; mas nada disso importa, porque a suposição é que nossos descendentes serão mais ricos do que nós e saberão o que fazer com esse dano e conseguirão compensá-lo de alguma forma. 

Os economistas subestimam o futuro porque supõem que nossos descendentes serão mais ricos; portanto, vamos deixar um mundo empobrecido e poluído. Este é o "paradoxo do otimismo". De fato, contra esse otimismo metafísico (com sua consequente subavaliação do futuro), tudo o que precisamos para que nossos descendentes sejam piores do que nós e que nossa espécie desapareça é continuar como estamos atualmente. No entanto, não estamos apenas continuando na mesma proporção, mas queremos, e até conseguimos, aumentá-la. A economia global, com a China e a Índia à frente, mas também incluindo países como a Alemanha e outros no grupo líder, cresceu 4% em 2010 (sem deduzir danos ambientais). Esse crescimento do PIB também aparece no aumento de indicadores como a “pegada ecológica” (índice que acrescenta o uso da terra e as emissões de dióxido de carbono), após uma breve interrupção em sua trajetória ascendente com a crise de 2008-2009. 

*Publicado originalmente AQUI.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Quando comer passa a ser perigoso: a ameaça dos pesticidas no alimento do brasileiro.

Marcos Costa Lima*

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a quantidade de agrotóxicos ingerida no Brasil é tão alta, que o país está na liderança do consumo mundial desde 2008. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, o que já é excessivo, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela mesma agencia. Segundo o Dossiê Abrasco¹ - um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos.

O Governo brasileiro, ao invés de estabelecer rigoroso controle sobre o uso dos pesticidas, é ao contrário, muito mais que leniente e, no afã de estimular o agronegócio, concede redução de 60% do ICMS (imposto relativo à circulação de mercadorias), isenção total do PIS/COFINS (contribuições para a Seguridade Social) e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) à produção e comércio dos pesticidas.

É fundamental que a população brasileira faça uma séria reflexão sobre as implicações da política governamental favorável ao agrobusiness, que afeta também a saúde humana, com efeitos também muito graves sobre o meio ambiente e as questões agrárias que envolvem a expulsão de camponeses e grupos indígenas, quando não são assassinados. O atual governo Bolsonaro não tem o menor interesse de apoiar a agricultura camponesa e familiar que produz comida saudável, sem venenos, agrotóxicos e transgênicos para o nosso povo. Mas também é urgente que haja resistência contra o envenenamento paulatino da vida e que se busque alterar esse quadro tão danoso.

A opção extrativista é hoje vitoriosa na América Latina, indo do México à Argentina  e representa a apropriação irresponsável dos recursos naturais não renováveis, através da mineração, que é controlada por grandes grupos econômicos nacionais e internacionais – vide os desastres de Mariana e Brumadinho²; das grandes fazendas de gado e da monocultura da soja, que geram muito pouco emprego, sendo a soja responsável por um grande movimento de importações de máquinas e venenos. O extrativismo é uma opção política assumida por vários governos, que acabam por gerar uma nova dependência, muitos recursos para poucos, portanto uma concentração econômica que empurra os camponeses a viver amontoados nas cidades em favelas.

Uma das consequências do extrativismo tem sido ainda a explosão de graves conflitos ambientais, pois as populações que vivem no campo e do campo, não têm outra forma de defender-se, senão através de mobilizações e participação cidadãs em defesa da biodiversidade, das matas, dos rios e de evitar a contaminação dos lençóis freáticos pelos pesticidas.

O Brasil, importante produtor de commodities agrícolas em escala planetária, aceitou ser empurrado para um papel, na divisão mundial do trabalho, majoritariamente “extrativista³”. É o maior importador de veneno e admite o uso de mais de 500 tipos de agrotóxicos, 30% deles proibidos na União Europeia. Entre os venenos agrícolas mais vendidos aqui, ao menos 14 estão proibidos no mundo em razão de seus efeitos comprovados de danos à saúde, quando não do câncer.

*Publicado originalmente no Jornal da Frente Brasil Popular.

²Leonardo Fernandes, Lu Sudré e Rute Pina. “Histórico de violações da Vale vai muito além de Mariana e Brumadinho”. In: Brasil de Fato, 29 de Janeiro de 2019. https://www.brasildefato.com.br/2019/01/29/historico-de-violacoes-da-vale-vai-muito-alem-de-mariana-e-brumadinho/ acesso em 22/04/2019
³Miriam Lang y Dunia Mokrani (Orgs), Más Allá del Desarrollo. Grupo Permanente de Trabajo sobre Alternativas al Desarrollo (2011), Quito: Ediciones Abya Yala/ Fundación Rosa Luxemburgo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Agroecologia Política: imperativo para o século XXI.

Por: Francisco Roberto Caporal.

A Agroecologia como uma nova ciência, nascida na América Latina nos anos 1970, vem se mostrando como um potente enfoque teórico capaz de apoiar processos de transição das agriculturas e dos sistemas agroalimentares insustentáveis, de natureza industrial e dominados pelo merca¬do capitalista, para a direção de sistemas mais sustentáveis e mais de acordo com os ideais de sustentabilidade e os princípios da segurança e da soberania alimentar. Como destacou o colega Gliessman, recentemente, a Agroecologia nos oferece um conjunto de técnicas e metodologias que permitem “o redesenho dos sistemas agroalimentares do campo à mesa”. 

Do ponto de vista prático, temos observado avanços significativos das diferentes experiências agroecológicas tanto no mundo, como na América Latina, mas, particularmente no Brasil, onde elas se espalham pelas diferentes regiões do nosso imenso território, respondendo às características dos diferentes agroecossistemas e sistemas culturais dos grupos sociais implicados. Muitos esforços têm sido realizados para sistematizar e dar visibilidade a essas experiências; no entanto, ainda estamos longe de cumprir com essa tarefa. 

Não obstante, tem-se observado que milhares de experiências, em geral, se mantêm localizadas, em nível de unidade de produção ou, em poucos casos, abrangendo comunidades rurais ou territórios. Isso se deve, em minha opinião, principalmente, a três questões: por um lado, a necessidade de ampliar a consciência e a abrangência de produtores e consumidores sobre os impactos socioambientais gerados pelo modo atual de produção, distribuição e consumo. Por outro lado, é cada vez mais evidente a carência absoluta, ou profundos retrocessos que têm ocorrido nas poucas políticas públicas de apoio à transição agroecológica em nosso país. Em terceiro lugar, observa-se, ainda, a ilusão de que só com a adoção continuada de inovações tecnológicas se conseguirá chegar a uma agricultura sustentável. Essa é uma falsa ideia, na medida em que os processos de transição não dependem somente de tecnologias, mas requerem importantes mudanças sociais, econômicas e institucionais. O que no âmbito do estado se traduz, também, em políticas públicas. 

Também se observa, que do ponto de vista tecnológico, técnicos e agricultores mostram domínio crescente das técnicas e formas de manejo capazes de contribuir para o desenho de agroecossistemas mais sustentáveis ou mesmo para o desenvolvimento de estratégias de comercialização mais sustentáveis do ponto de vista do consumo de matéria e energia e, portanto, mais sustentáveis socioambientalmente, como podem ser os diferentes tipos de circuitos curtos de comercialização. 

O acima exposto indica que o “escalonamento” das experiências agroecológicas já não depende, propriamente, de conhecimentos técnicos, científicos ou populares, mas está sendo obstaculizado pela carência de um arsenal apropriado de conhecimentos e instituições, capazes de ajudar na compreensão e análise dos elementos de insustentabilidade dos atuais modelos hegemônicos de agricultura industrial e sistemas agroalimentares oligopolizados, cuja superação não ocorrerá pelo voluntarismo de práticas individuais, senão que depende, fundamentalmente, de ação social coletiva. 

Daí, a necessidade imperativa de uma Agroecologia Política (AP), que, como campo de estudos do âmbito da Agroecologia, seja capaz de promover um entrelaçamento decisivo entre Agroecologia e Política, ou seja, a necessidade de uma agroecopolítica, que ponha luz sobre a realidade das crises socioambientais e contribua na direção das lutas sociopolíticas que necessitam ocorrer no ambiente institucional. 

A Agroecologia Política, assim como sua irmã, a Ecologia Política, se sustenta em dois pilares indissociáveis: os marcos cognitivos (conhecimento, ideologia) e marcos institucionais (regras, normas, políticas públicas) que deveriam orientar as condutas e as escolhas individuais e coletivas. Por um lado, a AP se propõe a oferecer uma ideologia (no 18 Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade - PPGCOM/UFPE | melhor sentido da palavra), ou seja, um conjunto de conhecimentos que possam iluminar caminhos em direção à sustentabilidade, isso é, examinar a partir da análise ecológica os atuais modelos de agriculturas industriais e os sistemas agroalimentares dominantes, mos¬trando seus elementos de insustentabilidade. Por outro, oferece um programa de normas, regras e de reformas institucionais de estímulo à transição agroecológica. E não se trata de um receituário. Aqui, estamos falando de políticas públicas, taxas ambientais do tipo poluidor-pagador, impostos verdes, isenção de impostos para alimentos ecológicos, sobretaxa a produtos quilométricos, sobretaxas a produtos químicos contaminantes (agrotóxicos, fertilizantes químicos), impostos sobre a emissão de gases de efeito estufa, estímulos à captação de carbono, pagamentos por serviços ambientais e/ou proteção da paisagem, assim como uma infinidade de possibilidades que vêm sendo implementadas em diferentes lugares. 

Obviamente, no primeiro caso, os avanços na produção dos conhecimentos que orientem as decisões individuais e coletivas (de produtores e consumidores) podem ocorrer em âmbitos mais restritos, desde laboratórios a grupos de produção e consumo. Não obstante, o segundo caso depende de ação social coletiva, o que nos remete diretamente para o campo da política, que é a disciplina ou o campo das relações sociais que se ocupa das inter-relações e dos arranjos institucionais que podem ser capazes de potencializar (ou não) processos de transição agroecológica. 

Desse modo, quanto mais ampla e abrangente for a escala em que ocorrem os processos de transição agroecológica, mais e mais eles dependem da política. Assim, em nível de unidade de produção, como vimos antes, a transição poderia ocorrer a partir da tomada de consciência individual ou familiar sobre a necessidade de mudanças no processo produtivo e, a partir daí, se lançaria mão do arsenal disponível de técnicas e formas de manejo capazes de levar a produção da direção de mais sustentabilidade, a partir do redesenho dos agroecossistemas de acordo com as condições ecológicas e socioeconômicas locais. Do mesmo modo, a partir desse nível de consciência sobre a necessidade de mudanças, consumidores poderiam fazer suas eleições por formas de apoio aos produtores de alimentos ecológicos, por privilegiar os mercados de proximidade, ou produtos de época, etc, e também eles estariam contribuindo para mais sustentabilidade. Ambos os casos já estão ocorrendo no mundo todo. 

Entretanto, à medida que a transição amplia sua escala, em nível de comunidade, microbacias, territórios, municípios, estados, nação ou planeta, passam a emergir novas propriedades para as quais as respostas dependem da ação coletiva e do poder político que cada grupo social ou movimento agroecológico possa ter para defender seus interesses, em diferentes arenas de disputa. Reforçando: estamos falando de política, de relações de poder. 

Nesse sentido, recolocar o processo de coevolução socioecológica nos seus trilhos da sustentabilidade não é tarefa apenas individual ou de pequenos grupos comunitários de produtores e consumidores, senão que depende de maiorias sociais, de força política sem a qual não será possível avançar na direção da sustentabilidade da agricultura e dos sistemas agroalimentares, por mais que tenhamos um arsenal técnico e metodológico adequado. Cabe enfatizar, não seremos somente nós, acadêmicos, técnicos e agricultores suficientes para impulsionar esses processos de transição em escalas mais amplas. Ou teremos a participação ativa de maiorias da cidadania (uma politização do consumo) ou os processos de transição agroecológica serão condenados a permanecer como periféricos, invisibilizados, restritos a guetos e a nichos de produção e consumo de alimentos sadios que não geram as transformações necessárias no sistema capitalista organizador da agricultura e dos sistemas agroalimentares. Por isso, a Agroecologia Política se tornou um imperativo para apoiar a transição agroecológica, ainda possível, no século XXI. 


O autor é professor da UFRPE e membro do Núcleo de Agroecologia e Campesinato – NAC/UFRPE.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Eu pensei que o Papa era POP. Me enganei?!

Por: Francisco Roberto Caporal

Depois que li a Encíclica Laudato Sí, do Papa Francisco, divulgada em 2015, fiquei imaginando que esse seria o Papa do ambientalismo, como muitos de nós ecologistas passamos a nos referir a ele. Nas suas quase 200 páginas, a Encíclica adverte e convoca a humanidade para que juntos possamos cuidar melhor da “nossa casa comum”. O conjunto das reflexões socioecológicas que constam no documento não são propriamente novidades. O novo estava no fato de ser uma Encíclica Papal, documento utilizado pelo Vaticano para transmitir um ensinamento que o Papa que ver disseminado entre os católicos.

De fato, o texto trás uma profunda crítica ao modelo de sociedade consumista em que vivemos, ao modelo predatório de crescimento econômico que tem levado à danos já irreparáveis à biodiversidade, aos riscos enormes que já enfrentamos e que se agravarão com respeito à água potável e ao processo de privatização da água, que já está em curso, assim como uma crítica aos tecnocratas e àqueles que professam uma fé cega nas tecnologias.  

Para o interesse deste artigo, vale destacar, por exemplo, a passagem a seguir, onde meu tocaio escreve:

“131. Quero recolher aqui a posição equilibrada de São João Paulo II, pondo em destaque os benefícios dos progressos científicos e tecnológicos, que «manifestam quanto é nobre a vocação do homem para participar de modo responsável na ação criadora de Deus», mas ao mesmo tempo recordava que «toda e qualquer intervenção numa área determinada do ecossistema não pode prescindir da consideração das suas consequências noutras áreas». Afirmava que a Igreja aprecia a contribuição «do estudo e das aplicações da biologia molecular, completada por outras disciplinas como a genética e a sua aplicação tecnológica na agricultura e na indústria », embora dissesse também que isto não deve levar a uma «indiscriminada manipulação genética » que ignore os efeitos negativos destas intervenções.”

Não obstante, para nossa surpresa, recentemente (julho de 2017) o Vaticano resvalou na maionese, como se diz no popular. O Papa determinou recomendações sobre a Eucaristia e, através de carta endereçada aos bispos pelo Cardeal Robert Sarah, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, foram feitas diversas advertências quanto à “qualidade” das hóstias de do vinho, que na Eucaristia se transformariam no corpo e sangue de Cristo. Segundo o Vaticano a orientação foi necessária após a hóstia e o vinho da Eucaristia começarem a ser vendidos em supermercados e até pela internet.

Mas qual foi o motivo da surpresa? Ocorre que na mesma carta o senhor Cardeal orienta aos bispos do mundo inteiro que “a eucaristia preparada com organismos geneticamente modificados pode ser considerada válida”. Isto é, a Igreja não se opõe a ingredientes transgênicos na fabricação das hóstias e na mesma linha não se oporá aos vinhos feitos de uvas transgênicas. Quer dizer, hóstia sem glúten ou falsificada, com açúcar, mel, etc., invalida a eucaristia, mas transgênico é livre. 

Ora, como pode o corpo e o sangue de Cristo serem modificados geneticamente, manipulados pela mesma ciência e tecnologia que o Papa condena na Encíclica antes mencionada. Será que o Vaticano vai colocar nas embalagens das hóstias um alerta para o fato de serem ou não transgênicas? Como fiéis, os católicos podem exigir na hora de receber a comunhão que se esclareça se estão comendo hóstias transgênicas. Não ficaria interessante esta cena, na igreja? 

- Pára a fila: quero saber se esta hóstia é transgênica ou não... 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Mercados de Proximidade: Circuitos Curtos de Comercialização


Por: Francisco Roberto Caporal
Recife, 30 de maio de 2018.

A mobilização dos caminhoneiros e empresas de transporte de cargas nos deixa muitos ensinamentos, entre os quais destacamos aqui a questão da produção e do abastecimento de alimentos.
 
Faz muito tempo que nós do campo da Agroecologia estamos insistindo sobre a importância dos Circuitos Curtos de Comercialização (CCC) por serem uma estratégia mais adequada do ponto de vista ambiental e, também, porque contribuem para assegurar melhores qualidades nutricionais dos alimentos, entre outros aspectos positivos.

Como todos sabemos quanto mais distância percorre um alimento, menos sustentável ele será, uma vez que o transporte implica em elevado consumo de matéria e energia (diesel, caminhões, etc). Há estudos mostrando que alimentos produzidos ecologicamente ou os chamados produtos orgânicos, que são comercializados a longas distâncias, podem ser menos sustentáveis do ponto de vista ambiental do que alimentos produzidos de forma convencional e comercializados em distâncias curtas. Esses alimentos orgânicos podem ser muito ecológicos dentro da porteira, dentro da unidade de produção, mas são menos sustentáveis quando estudados a partir de uma análise do metabolismo social do complexo agroalimentar do qual fazem parte.

Pode parecer paradoxal, mas é verdade. Não basta produzir ecologicamente, é preciso que se estabeleçam cadeias de comercialização que aproximem a produção do consumo, para que se alcance maiores níveis de sustentabilidade socioambiental. Quanto mais próximos estiverem os lugares de produção dos lugares de consumo mais sustentabilidade alcançaremos.

Vejam que não estamos discutindo as qualidades intrínsecas dos alimentos ecológicos. É óbvio que são melhores para nossa saúde e é óbvio que sendo produzidos sem a utilização de agrotóxicos, sem fertilizantes químicos e sem sementes transgênicas também serão mais amigáveis em relação ao meio ambiente. Sobre isso, se pensamos de forma egoísta, não importa de onde vêm os alimentos orgânicos que compramos, importa que tenhamos acesso a eles. Não obstante, se pensamos como uma sociedade que quer ser mais sustentável, então a questão da distância entre produção e consumo assume uma destacada importância.

Pois aí vem uma lição que pode ser retirada da mobilização dos caminhoneiros. Assistindo ou ouvindo os noticiários nestes dias tumultuados da paralização dos transportes de cargas, chamou atenção que muitas das reclamações sobre desabastecimento de alimentos estavam relacionadas com as grandes distâncias. Em tempos de calmaria ninguém se dá conta, mas quando temos um problema de transportes logo compreendemos, por exemplo, que não é racional levar melões e mamão do nordeste para abastecer as CEASAs de São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre. 

Tampouco é racional que os sistemas de produção animal e as enormes plantas dos frigoríficos estejam concentrados em alguns poucos lugares do Brasil. Isso é racional apenas do ponto de vista do lucro dos produtores e empresários que participam destas cadeias, mas não é racional nem do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, nem do ponto de vista da segurança alimentar e, muito menos, do ponto de vista da qualidade dos alimentos.

Aliás, sobre isso, já em 1973, o economista britânico nascido na Alemanha E. F. Schumacher, em seu livro “Small is beautiful” (traduzido e editado no Brasil com o título “O Negócio é ser pequeno”), já alertava que os pequenos negócios, seja em qual for o setor da economia, são socioambientalmente mais amigáveis do que as grandes extensões, as grandes produções intensivas e os grandes conglomerados industriais ou de prestação de serviços, etc.

Neste sentido, quando escutamos os representantes da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) alertando para o risco ambiental que poderia advir da mortalidade de milhões e milhões de galinhas, isso não é mais que parte do risco assumido ao se estabelecer modelos de produção intensivos, extremamente concentrados e que só estão preocupados com o lucro, com a racionalidade econômica. Portanto, a morte de milhões de galinhas em situações excepcionais é uma parte inerente ao modelo intensivo de produção que não tem como resolver-se diante de imprevistos como a atual paralização dos transportes. O normal para o modelo seria que os produtores recebessem a ração diariamente ou semanalmente, mas se isso não ocorre, é óbvio que o negócio está em risco. Mas ninguém fala desta parte do problema. Nem os representantes do setor, nem qualquer dos meios de comunicação tradicionais que cobriram a situação. E o pior é que o risco, neste caso, não é só dos proprietários destes milhões de galinhas. Nestes momentos os riscos passam a ser de todos nós, são riscos da sociedade, pois esta possível mortalidade causará danos ao meio ambiente, contaminação de águas superficiais, de lençóis freáticos, de solos e muito mais.
     
     Portanto, a greve do setor de transportes de cargas nos deixa algumas lições. Para o que interessa neste espaço, destacamos: 
    1)  Sistemas de produção intensivos, baseados apenas na racionalidade econômica e no lucro, são de alto risco para a sociedade. 
    2) Sistemas agroalimentares baseados em circuitos longos de comercialização, além de serem insustentáveis do ponto de vista ambiental, são mais arriscados do ponto de vista da segurança alimentar.

Sem aprofundar mais no assunto, deixamos esta breve reflexão para que nossos leitores tirem suas próprias conclusões. Lembramos, entretanto, que a alimentação é um ato político e deve ser uma decisão nossa. Podemos optar por apoiar os modelos intensivos e contaminadores de produção e os Circuitos Longos de Comercialização, deixando tudo como está, ou optamos pelo consumo de proximidade, pelos Circuitos Curtos de Comercialização.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Morte ao desenvolvimento sustentável



Por: Francisco Roberto Caporal

Temos insistido com nossos alunos que desenvolvimento ambientalmente sustentável não existe, é uma ficção inventada por tecnocratas. Tanto desenvolvimento como sustentabilidade são coisas relativas, não estáticas. Não são absolutas. Não há “O” desenvolvimento, nem há “A” sustentabilidade. Ademais, o desenvolvimento entendido como crescimento ilimitado da economia (não é o que os governos buscam = aumentar sempre o PIB) não é compatível com o que se busca com a sustentabilidade. Quando eu falo de sustentável, estou tomando como referência algo que não é sustentável. Quando eu evoco a palavra desenvolvimento tomo como referência o que eu considero como subdesenvolvimento. Assim, quando o presidente Truman usou pela primeira vez a palavra subdesenvolvidos (se referindo a nós, povos do Sul) ele tomava como referência o seu país como um exemplo de desenvolvimento. 

Muito menos podemos ter como referência o Desenvolvimento Sustentável das organizações internacionais, da ONU, do Banco Mundial, etc, que insistem em focar suas estratégias no contínuo crescimento econômico, como a condição indispensável para resolver os problemas socioambientais. Assim, se é certo que o crescimento econômico é necessário em certas sociedades, também é certo de que não é necessário para todas. Ademais, como conceito, o DS foi esvaziado, primeiro por ter sido abandonada a ênfase original para a solução das desigualdades sociais, chegando à Rio+20, em 2012, com uma noção absolutamente mercantil. Lançou-se a noção de “economia verde”, como se fosse possível um capitalismo verde comandado pelo mercado. 

Como lembram alguns “objetores do crescimento”, “a tese do crescimento verde é uma falácia...pois não existe uma combinação que permita aumentar a quantidade de produção (o PIB) melhorando a qualidade ambiental, de modo a fazê-la compatível com os equilíbrios naturais.” É nesta perspectiva que aparece a famosa citação, atribuída a Boulding, que diz que “Quem acredita que um crescimento exponencial pode continuar indefinidamente em um mundo finito, ou é louco ou é economista.” 

Sobre isso, já havia alertado Georgescu-Roegen em sua famosa obra A lei da entropia e o processo econômico. Para esse autor, “não pode haver dúvida alguma... de que todo o uso de recursos naturais para satisfazer necessidades não vitais leva consigo uma menor quantidade de vida no futuro.” E vai além: “desde o ponto de vista puramente material o processo econômico não faz mais do que transformar baixa entropia em lixo.” Ou, como ele explica, quanto maiores e mais potentes forem os automóveis, maior e mais contaminante será o lixo produzido. Na mesma linha, eu seu livro Prosperidade sem crescimento, Tim Jackson afirma que “as suposições simplistas de que a propensão à eficiência do capitalismo nos permitirá estabilizar o clima ou proteger-nos frente à escassez de recursos não são mais que meras ilusões. Os que promovem a desvinculação como via de escape do dilema do crescimento deveriam observar com mais cuidado as evidências históricas e a aritmética básica do crescimento.” 

Ademais, o uso oportunista da noção de desenvolvimento sustentável aparece nas falaciosas propagandas das indústrias de agrotóxicos, assim como no marketing de grandes empresas como a Petrobrás ou a Vale do Rio Doce, quando elas anunciam que suas atividades de extração de petróleo e minério são sustentáveis, o que é impossível. Nesta esteira de inconsistências do desenvolvimento sustentável ecotecnocrático, não tardariam a aparecer estratégias de novos negócios tais como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), a Aplicação Conjunta (países do leste europeu) e o Comércio de emissões de gases de efeito estufa. Como lembra Daniel Tanuro, no livro O impossível capitalismo verde, estas trampasforam úteis para os contaminadores”, pois ao contrario do que se proclama elas não servem para atender os objetivos propostos, mas sim para driblá-los “e transformá-los em fontes de lucro.” De sua análise sobre o funcionamento destes mecanismos, Tanuro conclui que “o mercado de carbono representa, assim, diga-se de passagem, um novo mercado especulativo gerador de bolhas financeiras.” 

Diante de tudo isso, os especialistas não cansam de alertar que a problemática socioambiental só piorou desde a Conferência sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972. É o nosso caso, no Brasil. De lá para cá, perdemos partes importantes de nossos biomas, acelerando a destruição da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, do Pantanal e até do frágil Pampa, onde os campos estão dando lugar a imensos monocultivos de eucaliptos. Enquanto isso, o famoso tripé das dimensões da sustentabilidade, muito presente nos discursos (dimensão econômica, dimensão ecológica e dimensão social), tem servido apenas para que os ecotecnocratas mantenham-se em seus postos de trabalho e continuem elaborando papers sobre sustentabilidade e escrevendo seus projetos mirabolantes de desenvolvimento sustentável, sem nenhuma eficácia na vida real das pessoas da cidade ou do campo.

Dentro deste quadro de agravamento da crise civilizatória em que estamos imersos, nossa agricultura, em que pese a sua fama, é o setor que mais emite gases de efeito estufa no Brasil. Para “enfrentar o problema” a principal política do governo é oferecer financiamento para que os agricultores apliquem a ABC – Agricultura de Baixo Carbono, que segundo especialistas, sua implementação tem sido um fracasso, dada a baixa adesão dos agricultores. Mesmo que fosse aplicada, trata-se de uma tentativa de mudar para não mudar nada, pois o modelo da ABC é apenas um paliativo ou, como alguns ecotecnocratas chamam, uma medida de mitigação (palavra bonita, da moda, mas que não aumenta a resiliência dos sistemas agropecuários baseados nos monocultivos, na química e na hipermecanização). 

A ideia de uma ampla transição agroecológica sequer passa pela cabeça da tecnocracia nacional. É algo impensável. Ainda que já faça parte, tímida, das agendas da ONU, da FAO, da UNCTAD, do IAASTD (Avaliação Internacional sobre Ciência Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento), de 2008.

Aliás, é bom que se diga, que a FAO, em 2007 e a UNCTAD, em 2010, já haviam recomendado a substituição da agricultura convencional agroquímica por agriculturas ecológicas. Entretanto, estas instituições não fizeram nada para dar consequência a suas recomendações. Pelo contrário, a FAO, por ocasião da Rio+20, divulgou um documento sobre “agricultura verde”, semelhante ao que já havia sugerido em 1994 – a velha noção de “intensificação verde”. Essas entidades dão voltas, mas não enfrentam o problema pela raiz. 

Por outro lado, em um Informe de 2010, Oliver de Shutter, Relator Especial sobre Direito à Alimentação, da ONU, afirmava que a segurança alimentar só se alcançará com uma agricultura de base ecológica, sugerindo a necessidade de uma mudança de paradigma, reforçando a Agroecologia como um caminho inexorável.

O problema é que o desenvolvimento sustentável ecotecnocrático ficou tão forte nos discursos, que deixa uma miragem de que estamos caminhando para a solução dos problemas ambientais, da fome, da miséria, da ampla destruição da biodiversidade. Na mesma medida, os gerenciadores do DS fogem de questões básicas como, a distribuição da riqueza, da terra e a equidade de acesso aos recursos dos territórios ou mesmo aos alimentos.

Talvez esteja na hora de matar o desenvolvimento sustentável e, quem sabe, colocar ênfase no ecodesenvolvimento de Maurice Strong e Ignacy Sachs. Pelo menos, nas noções básicas de ecodesenvolvimento vamos encontrar algumas qualidades e valores que começariam a mudar o quadro atual, como por exemplo: a) um claro compromisso com as gerações futuras, estabelecendo-se uma solidariedade diacrônica sem deixar de fortalecer laços de solidariedade entre as gerações atuais; b) a necessidade de respeito às diferenças culturais, étnicas, sociais, de gênero; c) a adequação da agricultura às condições dos ecossistemas ou agroecossistemas; d) uma menor “adoração” pela tecnologia, sugerindo um pluralismo metodológico e tecnológico, o que inclui o saber dos camponeses; e) dar prioridade para a diversidade, ao contrario da “monocultura da mente” que domina o modelo atual e que se reproduz no modelo convencional da revolução verde; f) respeitar a especificidade de cada bioma; g) estimular o desenvolvimento endógeno, com suas capacidades humanas e potenciais ecossistêmicos; h) apostar nas atividades de pequeno porte, por serem mais amigáveis com respeito ao meio ambiente; i) uma menor idolatria ao crescimento infinito, etc.

Essas proposições se aproximam muito das bases epistemológicas da Agroecologia e contribuiriam bastante para reparar o curso alterado da coevolução homem-natureza, como recomenda Eduardo Sevilla Guzmán.

Certamente que apenas isso não basta. É preciso adotar outras medidas necessárias para a construção de uma sociedade mais sustentável, entre as quais aquelas sugeridas pelos “teóricos” do Decrescimento. Até lá, o que parece certo é que devemos abandonar o conceito de desenvolvimento sustentável ecotecnocrático, pois ele gera uma miragem que nos engana a todos.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Caporal é homenageado pela Sociedad Científica Latinoamericana de Agroecología

A Sociedad Científica Latinoamericana de Agroecología prestou homenagem ao professor da UFRPE Francisco Caporal, durante o VI Congresso Brasileiro e Latino-americano de Agroecologia, realizado entre os dias 12 e 15 de setembro, em Brasília.

O docente foi agraciado com placa de reconhecimento "por seu incansável trabalho de pesquisa, ensino e divulgação em prol da Agroecologia como ciência para uma agricultura soberana e resiliente na América Latina".

Francisco Caporal é doutor Engenheiro Agrônomo pela Universid de Córdoba - Espanha (1998), no curso de Doutorado em Agroecología, Campesinato e Historia, do Instituto de Sociología y Estudios Campesinos, tendo recebido nota máxima 'Sobresaliente cum laude". Mestre em Extensão Rural, pela Universidade Federal de Santa Maria (1991) e graduado em Agronomia, pela Universidade Federal de Santa Maria (1975).

Atualmente, exerce as funções de Professor Adjunto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, junto ao Departamento de Educação, onde coordena a Área IV, de Extensão Rural. É membro do Núcleo de Agroecologia e Campesinato- NAC/UFRPE, onde também é coordenador. Já ocupou os cargos de Diretor Técnico da EMATER-RS, de 1999 a 2002, de diretor Substituto do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER) e coordenador geral de Ater e Educação, no mesmo Departamento da Secretaria de Agricultura Familiar, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, de 2003 a 2010.

Também é professor convidado da Universidad de Córdoba (ES) e Universidad Internacional de Andalucía (ES), no Programa Interuniversitário Oficial de Posgrado, no curso de Maestría y Doctorado em Agroecología: un enfoque sustentable de la agricultura ecológica. Professor convidado do Curso de Doutorado em Agroecología da Universidad de Antioquia (Colômbia).