terça-feira, 21 de abril de 2015

Ciência, Sociedade e a CTNBio

Publicado em: http://www.brasildefato.com.br/node/31851

Leonardo Melgarejo e José Maria Guzman Ferraz*


Em 8 de abril a Folha de Sao paulo publicou artigo surpreendente, assinado por W.Colli, H.Nader e J.Pallis Jr, onde os autores articulam interpretações sobre o papel da  ciência e da sociedade,  em defesa de uma CTNBio por eles idealizada.

Aqueles argumentos poderiam ser desmontados um a um, e propomos que isso ocorra em debate público, na SBPC ou na ABC, veiculado online para apreciação da sociedade. A simples hipótese de que "todos os pareceres são lidos em plenária" oculta o fato de que os processos em si são lidos por poucos. Os membros, que votam, escutam relatos/pareceres onde, sistematicamente, argumentos contrários ao desejo das empresas são interrompidos em plena leitura. Isto garante a exclusão de perspectivas que deveriam auxiliar na decisão daqueles que não tiveram acesso aos processos. A  maioria perde, assim, a oportunidade de rever ou consolidar julgamentos levando em conta estudos independentes e abordagens omitidas nos documentos preparados pelas empresas. Isto é relevante porque aqueles documentos incorporam desde desrespeito a normas da CTNBio até  descaso a compromissos internacionais, passando por mistificações estatísticas e desprezo a estudos atualizados, como tentam mostrar os pareceres contrários, aqueles que não conseguem ser lidos.

Talvez isto não ocorra no interesse das empresas, mas seguramente contribui para tanto.

Este e outros fatos têm motivado ações do Ministério Público Federal contra membros da CTNBio.  Recomendamos que a SBPC e a ABC examinem os documentos incorporados àquelas ações, que referem apoios, prêmios recebidos e até análises realizadas por membros da CTNBio, como possíveis indícios de associação entre alguns daqueles avaliadores e os interesses de determinadas empresas.

Convidamos as categorias profissionais representadas na CTNBio a avaliar o comportamento de seus afiliados, naquela Comissão. Que conselhos de ética se debrucem sobre pareceres apresentados por agrônomos, biólogos, geneticistas, farmacêuticos, etc. Perceberão que em grande parte dos casos não são criticados nem aportados elementos adicionais aos pontos elencados pelas empresas, quando do julgamento de suas premissas. Que os conselhos de ética avaliem a possibilidade concreta de que, neste campo de risco, as empresas jamais errem, ou sequer exagerem em suas afirmativas e pretensões.

A CTNBio, como órgão do Estado brasileiro, não está descuidando de suas responsabilidades mais fundamentais, em termos da análise de risco? Podemos mesmo ficar  tranquilos com o fato de que todos os estudos prévios, insuficientes no escopo e realizados em canteiros e laboratórios, não estejam sendo monitorados a campo, após a liberação comercial, quando aquelas plantas já ocupam milhões de hectares e os efeitos de escala trazem novos riscos? Podemos ficar tranquilos com estudos nutricionais que não utilizam os produtos colhidos naquelas lavouras, mas sim grãos plantados apenas para os testes, produzidos sem o uso dos venenos aplicados no mundo real?

Respeitar esta CTNBio, desprezando estes detalhes, equivaleria mesmo a respeitar a ciência?

Entendemos que não. A Ciência exige apreciação de informações atualizadas, completas, incorporando aquelas que se contradizem. Como aceitar que a CTNBio segue o princípio da precaução se, diante de dúvidas internacionais sobre o tema, aprova inexoravelmente todos os pedidos de liberação comercial que a ela chegam?

Com base em centenas de publicações referendadas por revistas especializadas de renome internacional, a ciência avisa: não é possível afirmar que estas plantas são seguras para a saúde e o ambiente. Nesta condição surpreende que ações na direção oposta possam ser apoiadas pelos presidentes da ABC e da SBPC, como se correspondessem ao pensamento das sociedades que representam.


*Agrônomos, pesquisadores e ex-membros da Comissão de Biotecnologia- CTNBIO, do Ministério de Ciência e Tecnologia. Atualmente estão na coordenação do grupo GT Agrotóxicos e Transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA Agroecologia.

terça-feira, 24 de março de 2015

Edgar Morin: é preciso educar os educadores

Entrevista cedida ao jornal O Globo, em 20.08.2014.*





O Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?
Edgar Morin: A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal" de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado.

É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.

O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.

O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar.

Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte" é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

O Globo: Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.

O Globo: A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?
Edgar Morin: Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.

O Globo: Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?
Edgar Morin: O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão. [Leia esta entrevista no site do O Globo]



Assista a Edgar Morin - Os limites do conhecimento na globalização | No vídeo exclusivo, Morin reflete sobre seus interesses enquanto filósofo e sociólogo: os limites do conhecimento e da razão, bem como a relação entre a poesia e a racionalidade. Ainda, questiona a possibilidade da mudança de pensamento em um mundo globalizado e acelerado. É possível sairmos de uma visão fechada em formas particulares para o pensamento complexo, capaz de ver os problemas em sua integralidade?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Agrotóxicos em Aldeia: o caso do Glifosato

Por: Francisco Roberto Caporal (1) e Maíra Boeck Silva (2)

Tornou-se comum, nos últimos anos, a prática a chamada “capina química” com o uso do herbicida glifosato (Roundup). Faz poucos dias, vimos um senhor fazendo uma aplicação deste herbicida em Aldeia, nas proximidades do Km 11. Infelizmente, a propaganda deste herbicida leva as pessoas a pensar que se trata de um veneno que não causa problemas ao ser humanos, aos animais e ao meio ambiente, o que já foi desmascarado por inúmeras pesquisas científicas, como demonstraremos abaixo.

Em pesquisa realizada no Canadá, por Arbuckle, et al (2001), os autores relacionaram o Glifosato ao aumento da incidência de abortos entre a 12ª e a 19ª semana de gravidez em mulheres de agricultores expostas a esta substância. A exposição aos herbicidas a base de Glifosato também foi associada ao desenvolvimento da doença de Parkinson (BARBOSA et al., 2001). Pesquisas anteriores, realizadas na Suécia, e publicadas no Journal of American Cancer Society, afirmaram que existe uma relação entre o contato prolongado com Glifosato e o linfoma não-hodgkin, uma forma de câncer (HARDELL; ERIKSSON, 1999).  

Um estudo realizado na Colômbia estabeleceu relações entre as aplicações aéreas do Plano Colômbia (Glifosato com POEA + Cosmoflux 411F), com danos no material genético de comunidades da fronteira Colombo-equatoriana, nas províncias de Sucumbíos (Equador) e Putumayo (Colômbia). Analisaram-se um grupo de 47 mulheres expostas às aplicações e todas sofreram com sintomas de intoxicação e apresentaram lesões genéticas em um terço das células sanguíneas pesquisadas (MALDONADO, 2003). 

Em pesquisa in vitro, utilizando células mononucleares de sangue periférico, Martinez et al (2007), confirmaram o efeito tóxico do Glifosato e suas preparações comerciais para células humanas. A tese apresentada por Rivera (2008), determinou que o glifosato tem efeito citotóxico e genotóxico em linfócitos humanos cultivados in vitro e expostos durante 48 horas à substância. Em 2009, Gasnier et al constataram danos ao DNA e ação carcinogênica, mutagênica e tóxicas para reprodução causados por herbicidas à base de Glifosato em células humanas e in vivo. Entre os efeitos provocados por herbicidas a base de Glifosato também foram relatadas em embriões de anfíbios (Xenopus laevis) estão: microftalmia (olhos menores que o normal), microcefalia (cabeças pequenas e deformadas), ciclopia (um olho só, no meio do rosto,), malformações craniofaciais (deformação de cartilagens faciais e cranianas) e encurtamento do tronco embrionário (PAGANELLI et al, 2010). 

Samsel e Senneff (2013) constataram que os peixes expostos ao Glifosato desenvolvem problemas digestivos, como a ruptura das pregas da mucosa, considerada uma reminiscência da doença celíaca (uma doença autoimune, cujos efeitos são precipitados pelo consumo de alimentos contendo glúten). Reportagem do Journal Le Monde, em Córdoba, na Argentina, revelou que a associação das Mães do Bairro de Ituzaingo denunciou mais de 200 casos de câncer entre os 5 mil habitantes. Em 2009, as mães conseguiram que um juiz proibisse a pulverização por aérea a menos de 1,5 quilômetros das habitações. (LEGRAND, 2011). 

De acordo com a mesma reportagem, na província do Chaco, na Argentina, na fronteira com o Paraguai, um estudo revelou que ao longo dos dez últimos anos a incidência de câncer triplicou, e o das malformações quadruplicou. Recente pesquisa realizada por Jayasumana et al (2014) no Sri Lanka, evidenciou a relação do Glifosato com doença renal crônica de etiologia desconhecida, os autores sugerem que o Glifosato se torna bastante tóxico para os rins, quando misturado com água "dura" ou metais como arsênio e cádmio, que podem existir naturalmente no solo ou ser adicionados através de fertilizantes. A água dura contém metais como cálcio, magnésio, estrôncio, ferro, entre outros. Tais constatações poderiam explicar similar epidemia de doenças nos rins observadas em Andra Pradesh (Índia) e na América Central.

Estes, e centenas de outros trabalhos, apotam os riscos associados ao glifosato. O herbicida ainda contamina as águas, inclusive dos lençóis freáticos, elimina as minhocas, causa danos à vida microscópica do solo, gera plantas resistentes, etc.

Esperamos que as informações acima contribuam para que os moradores de Aldeia eliminem a prática da “capina química” com o uso de herbicidas, em defesa da saúde de todos e da proteção do meio ambiente.  

Referências: Para quem ainda tem dúvidas, sugerimos a leitura dos trabalhos abaixo.

ARBUCKLE, T. E. et al. An exploratory analysis of the e.ect of pesticide exposure on the risk of spontaneous abortion in an Ontario farm population. Environmental Health Perspectives, vol 109, n 5: p851-857, 2001.

BARBOSA ER; LEITE C. Parkinsonism after glycine-derivate exposure. Movement Disorders vol 16.n3: p565-568, 2001.

GASNIER, C et al. 2009. Glyphosate-based herbicides are toxic and endocrine disruptorsin human cell lines. Toxicology 262, 184–191.

HARDELL, L; ERIKSSON, M. A case-control study of non-Hodgkin lymphoma and exposure to pesticides. Cancer, Lund, n.º 85(6), p. 1353-1360, 15 de março de 1999.

JAYASUMANA C. et al. Glyphosate, Hard Water and Nephrotoxic Metals: Are They the Culprits Behind the Epidemic of Chronic Kidney Disease of Unknown Etiology in Sri Lanka? International Journal of Environmental Research and Public Health. 2014; 11(2):2125-2147.

LEGRAND, C. En Argentine, les habitants exposés à l'herbicide se plaignent de multiples affections. Journal Le Monde. 08.08.2011 à 16h36. Disponível em:  http://www.lemonde.fr/planete/article/2011/08/08/en-argentine-les-habitants-exposes-a-l-herbicide-se-plaignent-de-multiples-affections_1557289_3244.html.

MALDONADO, A. daños genéticos en la frontera de ecuador por las fumigaciones del plan Colombia. Informe de Investigación, 2003.

MARTINEZ, A. et al. Citotoxicidad del Glifosato en células mononucleares de sangre periférica humana. Biomédica Bogotá, v. 27, n.4, Dec.  2007.

PAGANELLI.A. et al. Glyphosate-Based Herbicides Produce Teratogenic Effects on Vertebrates by Impairing Retinoic Acid Signaling. Chemical Research in Toxicology, vol. 23, n. 10, p1586-1595. American Chemical Society. 2010.

RIVERA, A.D. Efecto citotóxico y genotóxico del glifosato em linfócitos humanos. Tese de Doutorado. Universidade Veracruzana. Faculdade de Biologia, Xalapa. 2008.

SAMSEL, A.; SENEFF, S. Glyphosate, pathways to modern diseases II: Celiac sprue and gluten intolerance. Interdisciplinary Toxicology, Vol. 6, No.4, 159–184, 2013.


As autores, são moradores de Aldeia:
(1) Engenheiro Agrônomo, Doutor em Agroecologia pela Universidad de Córdoba, Espanha e Membro do Núcleo de Agroecologia e Campesinato da UFRPE. Email: caporalfr@gmail.com BLOG: frcaporal.blogspot.com.br
(2) Engenheira Agrônoma, Doutoranda em Agroecologia pela Universidad de Sevilla, Espanha. Email: mairaboek@yahoo.com.br

TTIP, tirem as mãos da comida!

Esther Vivas*

Uma ameaça paira sobre as políticas agroalimentares na Europa. Trata-se do Tratado de Livre Comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, mais conhecido como TTIP, a sua sigla em inglês, a longa sombra do agronegócio que se estende do campo ao prato. Como vampiros em busca de sangue, as multinacionais do setor esperam lucrar, e muito, com estas novas medidas de liberalização comercial.

Mas o que é o TTIP? Trata-se de um tratado negociado em segredo durante meses, escondido do público, pendente de aprovação pelo Parlamento Europeu, com uma campanha de marketing em marcha, e que tem como objetivo final igualar em baixa as legislações de ambos os lados do Atlântico em benefício único das grandes empresas. As suas consequências: mais desemprego, mais privatizações, menos direitos sociais e ambientais. Em resumo, servir numa bandeja os nossos direitos ao capital.

E, em matéria agrícola e alimentar? As empresas do setor, desde as companhias de sementes passando pela indústria biotecnológica, de bebidas, pecuária, alimentar, de rações… são as que mais têm pressionado a seu favor, à frente inclusive do lóbi farmacêutico, automobilístico e financeiro. Está muito em jogo para multinacionais como Nestlé, Monsanto, Kraft Foods, Coca Cola, Unilever, Bacardi-Martine, Cargill, entre outras. Dos 560 encontros consultivos da Comissão Europeia para a aprovação deste Tratado, 92% realizaram-se com grupos empresariais, 26% com instituições de interesse público. Como indica um relatório do Corporate European Observatory: “Por cada reunião com um sindicato ou um grupo de consumidores, houve 20 com empresas e federações industriais”.

Se o Tratado de Livre Comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia for aprovado, que impacto terá na nossa mesa?

Mais transgênicos

A entrada massiva de transgênicos na Europa será uma realidade. Apesar de hoje já importarmos um número considerável de alimentos transgênicos, em particular rações para o gado e muitos produtos transformados que contêm derivados de soja e milho transgênico, como lecitina, óleo e farinha de soja, xarope e farinha de milho, a aprovação do TTIP significará um aumento dessas importações, especialmente das primeiras, e inclusive a entrada de transgênicos que na atualidade não são autorizados pela União.

Há que ter em conta que a legislação norte-americana é muito mais permissiva que a europeia tanto no cultivo como na comercialização de Organismos Geneticamente Modificados. Nos Estados Unidos, por exemplo, a rotulagem que identifica um alimento como transgênico é inexistente, ao contrário da Europa, onde apesar das limitações, as leis obrigam teoricamente a essa identificação. Além disso, na União apenas se cultiva um único alimento transgénico com fins comerciais: o milho MON 810 da Monsanto, apesar do impacto negativo no meio ambiente que este tem com a contaminação de outros campos de milho, tanto convencional como ecológico. Ainda que 80% de sua produção seja levada a cabo em Aragão e na Catalunha, a maior parte dos países europeus vetam-no. Nos Estados Unidos, pelo contrário, o número de culturas é muito mais alto. De aqui que a Europa seja um pedaço apetecido para multinacionais como Monsanto, Syngenta, Bayer, Dupont… e o TTIP pode tornar isso numa realidade.

Porco, vaca e leite com hormônios

O veto à carne e aos produtos derivados de animais tratados com hormônios e promotores de crescimento, até ao momento proibidos na Europa, será levantado, assim como o uso aqui dessas substâncias, com o consequente impacto na nossa saúde.

Nos Estados Unidos, os porcos e o gado bovino podem ser medicados com ratopamina, um fármaco usado como aditivo alimentar para conseguir uma maior engorda do animal, e maior lucro econômico para a indústria pecuária. Na União, a utilização deste produto e a importação de animais tratados com o mesmo está proibida, tal como em outros 156 países como China, Rússia, Índia, Turquia, Egito, ao se considerar que não há dados suficientes que permitam descartar riscos para a saúde humana. Noutros 26 países, como Estados Unidos, Austrália, Brasil, Canadá, Indonésia, México, Filipinas, pelo contrário ele é utilizado.

O mesmo vai acontecer com o uso do hormônio somatotropina bovina empregada, principalmente, em vacas leiteiras para aumentar a sua produtividade, e conseguir entre 10% e 20% mais leite. No entanto, vários são os efeitos secundários associados à sua utilização em animais (esterilidade, inflamação dos úberes, aumento da hormona do crescimento…) e o seu impacto nos humanos (alguns estudos ligam-no a um incremento do risco de cancro da mama ou da próstata e ao crescimento das células cancerosas). Por isso, a União Europeia, o Canadá e outros países proibiram o seu uso e a importação de alimentos de animais tratados com ela. Mesmo assim, outros países, principalmente os Estados Unidos, utilizam-na. O que é certo é que a empresa norte-americana Monsanto, a número um das sementes transgénicas, é a única do mercado que comercializa essa hormona, com o nome comercial de Posilac. Que coincidência.

Frangos clorados

A carne de frango “desinfetada” com cloro chegará também à nossa mesa. Se na Europa se utiliza um método de controlo de doenças das aves, desde a cria passando pelo seu desenvolvimento e sacrifício até à sua comercialização, com carácter preventivo, nos Estados Unidos optaram por otimizar custos baixando os padrões de segurança alimentar. Deste modo, as aves criadas e sacrificadas são desinfetadas unicamente no final da cadeia, submergindo-as numa solução química antimicrobiana geralmente à base de cloro ou, o que é o mesmo, dando-lhes simplesmente “um banho de cloro”. Assim os frangos ficam “limpos”, sem bactérias, bem branqueados, e o seu tratamento sai muito mais barato. Uma vez mais, tudo pelo dinheiro.

Mas que consequências pode ter isto para a nossa saúde? Na União, desde 1997, proíbe-se a entrada de carne de aves de capoeira dos Estados Unidos, devido a esses tratamentos e aos resíduos de cloro ou outras substâncias químicas empregadas para a sua desinfeção que podem persistir na carne que depois consumimos. Além disso, a indústria pecuária norte-americana afirma que estes tratamentos permitem eliminar os microrganismos patogénicos, no entanto as infeções não diminuem significativamente e inclusive o uso continuado de desinfetantes pode acabar por provocar resistências.

Dizem-nos que os padrões de segurança alimentar norte-americanos são dos mais seguros. Não apontam na mesma direção alguns relatórios que constatam que uma em cada quatro pessoas, 76 milhões, por ano nos Estados Unidos adoecem com doenças provocadas pelo consumo de alimentos. Destas, 325 mil são hospitalizadas e 5 mil morrem. Os peritos assinalam que a maioria dos casos poderia ser evitado com melhorias no sistema de controlo alimentar. Tirem as vossas conclusões.

Já vai sendo hora de dizermos ao TTIP: tirem as vossas mãos sujas da comida!


*Artigo publicado em Publico.es, 31/12/2014. Tradução de Carlos Santos para Esquerda.net.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A agricultura camponesa e ecológica pode alimentar o mundo?



Esther Vivas*

Calcula-se que a população mundial, em 2050, chegará aos 9,6 bilhões de habitantes, segundo um relatório das Nações Unidas. O que significa 2,4 bilhões a mais de bocas para alimentar. Diante destes números, existe um discurso oficial que afirma que para dar de comer para tantas pessoas é imprescindível produzir mais. No entanto, é necessário nos perguntarmos: Hoje, falta comida? Cultiva-se o bastante para toda a humanidade?Atualmente, no mundo, “são produzidos alimentos suficientes para dar de comer para até 12 bilhões de pessoas, segundo dados da FAO”, afirmava Jean Ziegler, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, entre os anos 2000 e 2008. E recordemos que o planeta é habitado por 7 bilhões. Sem contar que todo dia é jogada 1,3 bilhão de tonelada de comida, em escala mundial, um terço do total que se produz, conforme um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Segundo estes dados, comida não falta.

Os números demonstram que o problema da fome não é por causa da escassez de alimentos, apesar de alguns se empenharem em afirmar totalmente o contrário. O próprio Jean Ziegler dizia: “As causas da fome são provocadas pelo homem. Trata-se de um problema de acesso, não de superpopulação”. Em definitivo, é uma questão de falta de democracia nas políticas agrícolas e alimentar. De fato, na atualidade, estima-se que quase uma em cada oito pessoas no mundo passa fome, de acordo com os dados da FAO. A aberração da fome atual é que ocorre em um planeta da abundância de comida.

Então, por que há fome? Por que muitas pessoas não podem pagar o preço cada dia mais caro dos alimentos, seja aqui ou em países do Sul. Os alimentos se tornaram uma mercadoria e se você não pode pagar por ela, preferem jogar a dar para comer. Do mesmo modo, os cereais não são produzidos apenas para alimentar as pessoas, mas também os carros, como os agrocombustíveis, e os animais, criação que necessita de muito mais energia e de recursos naturais do que se, com esses cereais, a pessoas forem alimentadas diretamente. Produz-se comida, mas uma grande quantidade dela não vai para o nosso estômago. O sistema de produção, distribuição e consumo de alimentos está organizado unicamente para dar dinheiro para aquelas empresas do agronegócio, que monopolizam do início ao fim a cadeia agroalimentar. Eis, aqui, a causa da fome.

Por conseguinte, por que alguns continuam insistindo em que é preciso produzir mais? Por que nos dizem que é preciso uma agricultura industrial, intensiva e transgênica que nos permita alimentar o conjunto da população? Querem nos fazer acreditar que as causas da fome serão a solução, mas isto é falso. Mais agricultura industrial, mais agricultura transgênica, como já se demonstrou, significam mais fome. Existe muita coisa em jogo, quando falamos de comida. As grandes empresas do setor sabem muito bem disso. Daí que o discurso hegemônico, dominante, diz-nos que elas têm a solução para a fome mundial, quando na realidade são aquelas, com suas políticas, que a provocam.

Outro paradigma agroalimentar

Diante do que vimos, o que podemos fazer? Quais alternativas há? Se todos nós queremos comer e comer bem, é necessário apostar por outro modelo de alimentação e agricultura. Antes, afirmávamos que agora há comida suficiente para todos. Isto é assim, com uma dieta diferente, com muito menos consumo de carne do que a dieta ocidental atual.

Nossa “adição” à carne faz com que precisemos de muito mais água, cereais e energia para produzir comida, para engordar o gado, do que se nossa dieta fosse mais vegetariana. Calcula-se, segundo o Atlas da Carne, que 1/3 das terras de cultivo e 40% da produção de cereais no mundo são destinadas para alimentá-los. Tornar compatível a vida humana com os limites e recursos finitos do planeta terra também passa pelo questionamento do que comemos.

Além disso, outro tema se apresenta, caso se proponha prescindir de uma produção de alimentos industrial, intensiva, transgênica, que alternativa temos? A agricultura camponesa e ecológica pode alimentar o mundo? Cada vez são mais as vozes que dizem “sim”.

Uma das mais reconhecidas é a de Olivier de Schutter, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, entre os anos 2008 e 2014, que afirmava em seu relatório, “A agroecologia e o direito à alimentação”, apresentado em março de 2011, que “os pequenos agricultores poderiam duplicar a produção de alimentos em uma década, caso utilizassem métodos produtivos ecológicos” e acrescenta: “faz-se imperioso adotar a agroecologia para colocar fim à crise alimentar e ajudar a enfrentar os desafios relacionados com a pobreza e a mudança climática”.

Segundo De Schutter, a agricultura camponesa e ecológica é mais produtiva e eficiente e garante melhor a segurança alimentar das pessoas do que a agricultura industrial: “A evidência científica demonstra que a agroecologia supera o uso dos fertilizantes químicos no fomento da produção de alimentos, sobretudo nos entornos desfavoráveis onde vivem os mais pobres”. O relatório “A agroecologia e o direito à alimentação”, a partir da sistematização de dados de vários estudos de campo, deixava claro: “Em diversas regiões, desenvolveram-se e foi provado com excelentes resultados técnicas muito variadas, baseadas na perspectiva agroecológica. (...) Tais técnicas, que conservam recursos e utilizam poucos insumos externos, tem um potencial comprovado para melhorar significativamente os rendimentos”.

Um dos principais estudos, dirigido por Jules Pretty, e citado neste relatório da ONU, analisava o impacto da agricultura sustentável, ecológica e camponesa em 286 projetos de 57 países pobres, em um total de 37 milhões de hectares (3% da superfície cultivada em países em desenvolvimento), e suas conclusões não deixam dúvidas: a produtividade destas terras, graças à agroecologia, aumentou em 79% e a produção média de alimentos cresceu em 1,7 toneladas anuais (até 73%). Posteriormente, a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) tomaram de novo estes dados para analisar o impacto da agricultura ecológica e camponesa, especificamente nos países africanos. Os resultados ainda foram melhores: o aumento médio das colheitas nos projetos na África foi de 116% e na África Oriental de 128%. Outros estudos científicos, citados no relatório “A agroecologia e o direito à alimentação”, chegavam às mesmas conclusões.

Além disso, a agricultura ecológica e camponesa não apenas é altamente produtiva, inclusive mais do que a agricultura industrial, especialmente nos países empobrecidos, mas, como afirmavam os estudos anteriormente citados, também cuida dos ecossistemas, permite “conter e inverter a tendência na perda de espécies e a erosão genética” e aumenta a resiliência à mudança climática. Como também dá maior autonomia ao campesinato. “Ao melhorar a fertilidade da produção agrícola, a agroecologia reduz a dependência dos agricultores dos insumos externos e das subvenções estatais”.

Mais apoios

Outro importante relatório que aponta nesta direção são as conclusões a que chegou um dos principais processos intergovernamentais realizados para avaliar a eficácia das políticas agrícolas: a Avaliação Internacional do papel do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia em Desenvolvimento Agrícola (IAASTD, em suas siglas em inglês). Uma iniciativa estimulada, em um primeiro momento, pelo Banco Mundial e a FAO, e que contou com o seu patrocínio e de outras organizações internacionais como o Fundo para o Meio Ambiente Mundial (FMAM), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o PNUMA, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O objetivo desse processo era avaliar o papel do conhecimento, a ciência e a tecnologia agrícola na redução da fome e da pobreza no mundo, a melhora dos meios de subsistência nas zonas rurais e a promoção de um desenvolvimento ambiental, social e econômica sustentável. A avaliação, realizada entre os anos 2005 e 2007, contou com uma direção integrada por representantes de governos, ONGs, grupos de produtores e consumidores, entidades privadas e organizações internacionais, com um claro equilíbrio geográfico, com a participação de 400 especialistas mundiais para realizarem este estudo, que incluía uma avaliação mundial e cinco de regionais.

Suas conclusões marcaram um ponto de inflexão, já que pela primeira vez um processo intergovernamental destas características, e patrocinado por estas instituições, realizava uma aposta clara e firme na agricultura ecológica e destacava sua alta produtividade. Em concreto, o relatório afirmava que “o aumento e o fortalecimento dos conhecimentos, a ciência e a tecnologia agrícola, orientados para as ciências agroecológicas, contribuirão para resolver questões ambientais, ao mesmo tempo em que mantém e aumenta a produtividade”.

Desse modo, considerava que a agricultura ecológica era uma alternativa real e viável à agricultura industrial, que garantia melhor a segurança alimentar das pessoas e que era capaz de reverter o negativo impacto ambiental desta última. O relatório dizia: “A pegada ecológica da agricultura industrial já é muito grande para ignorá-la (...). As políticas que promovem uma adoção mais rápida de soluções de eficácia (...) para a mitigação e a adaptação à mudança climática podem contribuir para frear ou inverter esta tendência e, ao mesmo tempo, manter uma adequada produção de alimentos. As políticas que promovem práticas agrícolas sustentáveis (...) estimulam uma maior inovação tecnológica, como a agroecologia e a agricultura orgânica, para aliviar a pobreza e melhorar a segurança alimentar”.

Os resultados da IAASTD consideravam, igualmente, a agricultura industrial e intensiva como geradora de “desigualdades”, acusavam-na pelo “manejo insustentável do solo ou da água” e de práticas baseadas na “exploração trabalhista”. A avaliação concluía que “as variedades de cultivos de alto rendimento, os produtos agroquímicos e a mecanização beneficiaram principalmente aos grupos dotados de maiores recursos da sociedade e corporações transnacionais, e não aos mais vulneráveis”. Algumas afirmações inéditas, até o momento, no panorama internacional, por parte de instituições e governos.

Este relatório, com estas conclusões, foi aprovado pelas autoridades de 58 países em uma assembleia plenária intergovernamental, em abril de 2008, em Johanesburgo, em que mostraram acordo e avaliaram os resultados. Os Estados Unidos, Canadá e Austrália, como não é surpresa para ninguém, negaram-se a subscrever esta avaliação e mostraram reservas e desconformidades à totalidade.

Conclusão

Os relatórios de Olivier de Schutter, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, e da IAASTD destacam, sem ambiguidades, a alta capacidade produtiva da agricultura camponesa e ecológica, igual ou superior, dependendo do contexto, à agricultura industrial. Ao mesmo tempo, consideram que esta permite um maior acesso aos alimentos, por parte das pessoas, ao apostar em uma produção e uma comercialização local. Além disso, com suas práticas respeita, conserva e mantém a natureza. O "mantra" de que a agricultura industrial é a mais produtiva e de que é a única que pode dar de comer à humanidade demonstra-se, com base nestes estudos, totalmente falso.

Na realidade, a agricultura camponesa e ecológica não só pode alimentar o mundo, como também é a única capaz de fazer isso. Não se trata de um retorno romântico ao passado, nem de uma ideia bucólica do campo, mas, sim, de fazer confluir os métodos campesinos de ontem com os saberes do amanhã e de democratizar radicalmente o sistema agroalimentar. 


*Artigo publicado por Publico.es, em 20/05/2014. Tradução: CEPAT, Instituto Humanitas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os mitos do sistema alimentar

Esther Vivas*

Dizem-nos que o sistema agrícola e alimentar é o melhor dos possíveis. Um modelo altamente produtivo que permite dar de comer a todo o mundo, muito eficiente, que oferece uma grande variedade de alimentos, que facilita o trabalho aos agricultores e o melhor… que nunca antes tínhamos comido de uma maneira tão segura. A sério? No entanto, quando analisamos em detalhe, e com números na mão, a cada uma destas afirmações vemos que são falsas. Quem as diz pensa que pelas repetir muitas vezes nós vamos engolí-las. A verdade é que o atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos assenta numa série de mitos que são mentira.


Acabar com a fome

Um dos ‘mantras’ mais repetidos é que a agricultura industrial e intensiva, com a sua alta produtividade, pode acabar com a fome. De facto, na atualidade, segundo dados de Jean Ziegler que foi relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, há comida no mundo para 12.000 milhões de pessoas, e no planeta somos 7.000 milhões. Não deveria haver ninguém sem comer. A realidade, porém, é bem diferente: um em cada oito habitantes no mundo, quase mil milhões, passa fome. Comida há, e muita, mas não acaba nos nossos estômagos… só no daqueles que se podem permitir a isso.

Mais comida não significa poder comer. Porquê? Os alimentos no sistema agroalimentar converteram-se numa mercadoria. A cadeia que une o campo à mesa está nas mãos de umas poucas empresas do agronegócio e dos supermercados que converteram o direito à alimentação num privilégio. Em consequência, ou tens dinheiro para pagar o preço cada dia mais caro da comida ou o acesso àquilo que dá de comer (terra, água, sementes), ou não comes. Não temos um problema de falta de produção ou superpopulação, mas de democracia, de acesso aos alimentos.

E quando nos falam de eficiência… que eficiência? A de um sistema que desperdiça anualmente, segundo dados da FAO, um terço da comida que produz para o consumo humano: um total de 1.300 milhões de toneladas. Alimentos para comer ou desperdiçar? Eis a questão. A agroindústria é o negócio da fome, assim como a banca é o negócio da pobreza.


Liberdade e variedade

Fazem questão de nos dizer que somos “livres” para escolher entre uma grande “variedade” de produtos. Os supermercados Caprabo dão-nos as boas-vindas, como “livre comprador”. No entanto, sob a ilusão da diversidade esconde-se a mais estrita uniformidade.

No campo, fornecem ao agricultor todo o tipo de sementes híbridas e transgênicas. No supermercado vendem-nos imensos alimentos. Mas nunca como agora tivemos tão pouca variedade de culturas. Em apenas um século, perdemos 75% da diversidade agrícola e alimentar, segundo dados da FAO. Alimentos que até há umas décadas eram inabituais, como a soja, atualmente tornaram-se omnipresentes. Nas linhas da grande distribuição encontramos sempre as mesmas marcas. Liberdade? Variedade? Bem, pelo contrário.


De pobres camponeses a camponeses pobres

Uma agricultura que beneficia o camponês? Onde? A agricultura industrial está pensada por e para o agronegócio e em detrimento daqueles que sempre cuidaram e trabalharam a terra. Senão, como se explica que na Europa mais de mil explorações agrárias tenham que fechar em cada dia? Assim o diz a Coordenadora Europa da Via Camponesa. Ou, que no Estado espanhol unicamente 4,3% da população ativa se dedique à agricultura? A resposta é fácil: quando se trata de vender os alimentos, quem menos ganha é quem os produz.

A diferença entre o preço que se paga ao agricultor no campo e o que nós pagamos no supermercado continua a subir. Hoje, o custo do produto alimentar multiplica-se em média por 4,52 da origem até ao destino. A diferença percentual entre o que se paga ao produtor e o que é pago ao “supermercado” por alimentos como abóbora, repolho e beringela é de 950%, 808% e 717% respetivamente, segundo o Índice de Preços na Origem e Destino. Passamos dos pobres camponeses aos camponeses pobres.


Segurança alimentar?

Afirmam que a comida nunca tinha sido tão segura. Mas então, como se explicam os escândalos alimentares que nos abanam dia sim dia sim? Desde as vacas loucas, passando pelo frango com dioxinas até aos produtos com carne de cavalo onde se supunha que só havia vaca. Não temos nem ideia do que colocamos nas nossas bocas. Ao mesmo tempo, as doenças ligadas ao que comemos continuam a aumentar. As “doenças ocidentais”, como a obesidade, a diabetes, os problemas cardiovasculares e o cancro resultado de uma “dieta ocidental”, altamente processada, com muita carne, gordura e açúcar são, tristemente, a melhor prova. Somos o que comemos. As consequências de uma agricultura e de uma alimentação “viciada” em agro-tóxicos, transgénicos e aditivos vários são claras. Que o sistema agrícola e alimentar é o melhor dos possíveis? Por favor, não nos enfiem o barrete.

*Artigo publicado em publico.es em 10 de outubro de 2014. Traduzido por Esquerda.net.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O mais novo fantasma da Monsanto

 Jeff Ritterman, M.D.*

Em El Salvador, CKDu tornou-se a segunda maior causa de mortalidade masculina. 
No Sri Lanka, número de mortes ultrapassa 20 mil. E no Brasil?

Estudo sugere: doença ainda inexplicada, que destrói rins e já matou milhares de agricultores, pode estar relacionada ao glifosato, herbicida-líder da transnacional

O herbicida Roundup, da Monsanto, foi vinculado à epidemia de uma misteriosa doença renal fatal que apareceu na América Central, no Sri Lanka e na Índia.

Há anos, os cientistas vêm tentando desvendar o mistério de uma epidemia de doença renal crônica que atingiu a América Central, a Índia e o Sri Lanka. A doença ocorre em agricultores pobres que realizam trabalho braçal pesado em climas quentes. Em todas as ocasiões, os trabalhadores tinham sido expostos a herbicidas e metais pesados. A doença é conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de etiologia desconhecida). O “u” (de “unknown”, desconhecido) diferencia essa enfermidade de outras doenças renais crônicas cuja causa é conhecida. Poucos profissionais médicos estão cientes da CKDu, apesar das terríveis perdas impostas à saúde dos agricultores pobres, de El Salvador até o sul da Ásia.

Catharina Wesseling, diretora regional do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (Saltra) na América Central, pioneiro nos estudos iniciais sobre o surto ainda não esclarecido na região, diz o seguinte: “Os nefrologistas e os profissionais da saúde pública dos países ricos não estão familiarizados com o problema ou duvidam inclusive que ele exista”.

Wesseling está sendo diplomática. Na cúpula da saúde de 2011, na cidade do México, os EUA rechaçaram uma proposta dos países da América Central que teria listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas.

David McQueen, um delegado norte-americano do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que posteriormente se desligou dessa agência, explicou a posição de seu país. “A ideia era manter o foco nos fatores de risco chave que poderíamos controlar e nas grandes causas de morte: doença cardíaca, câncer e diabetes. E sentíamos que a posição que assumimos incluía a CKD”.

Os norte-americanos estavam errados. Os delegados da América Central estavam certos. A CKDu é um novo tipo de doença. Essa afecção dos rins não resulta da diabetes, da hipertensão ou de outros fatores de risco relacionados com a dieta. Diferentemente do que acontece na doença renal ligada à diabetes ou à hipertensão, muitos dos danos da CKDu ocorrem nos túbulos renais, o que sugere uma etiologia tóxica.


Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Hoje, a CKDu é a segunda maior causa de mortalidade entre os homens em El Salvador. Esse pequeno e densamente povoado país da América Central tem atualmente a maior taxa de mortalidade por doença renal no mundo. Os vizinhos Honduras e Nicarágua também têm taxas extremamente altas de mortalidade por doença renal. Em El Salvador e Nicarágua, mais homens estão morrendo por CKDu do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntas. Numa região rural da Nicarágua, tantos homens morreram que a comunidade é chamada “A Ilha das Viúvas“.

Além da América Central, a Índia e o Sri Lanka foram duramente atingidos pela epidemia. No Sri Lanka, mais de 20 mil pessoas morreram por CKDu nas últimas duas décadas. No estado indiano de Andhra Pradesh, mais de 1.500 pessoas receberam tratamento para a doença desde 2007. Como a diálise e o transplante de rim são raros nessas regiões, a maioria dos que sofrem de CKDu irão morrer da doença renal.

Numa investigação digna do grande Sherlock Holmes, um cientista-detetive do Sri Lanka, dr. Channa Jayasumana, e seus dois colegas, dr. Sarath Gunatilake e dr. Priyantha Senanayake, lançaram uma hipótese unificadora que poderia explicar a origem da doença. Eles argumentaram que o agente agressor deve ter sido introduzido no Sri Lanka nos últimos trinta anos, uma vez que os primeiros casos apareceram em meados da década de 1990. Essa substância química também devia ser capaz de, em água dura, formar complexos estáveis com os metais e agir como um escudo, impedindo que esses metais sejam metabolizados no fígado. O composto também precisaria agir como um mensageiro, levando os metais até o rim.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Sabemos que as mudanças políticas no Sri Lanka no final dos anos 1970 levaram à introdução dos agroquímicos, principalmente no cultivo do arroz. Os pesquisadores procuraram os prováveis suspeitos. Tudo apontava para o glifosato, um herbicida amplamente utilizado no Sri Lanka. Estudos anteriores tinham mostrado que o glifosato liga-se aos metais e o complexo glifosato-metal pode durar por décadas no solo.

O glifosato não foi originalmente criado para ser usado como herbicida. Patenteado pela Stauffer Chemical Company em 1964, foi introduzido como um agente quelante, porque se liga aos metais com avidez. O glifosato foi usado primeiramente na remoção de depósitos minerais da tubulação das caldeiras e de outros sistemas de água quente.

É essa propriedade quelante que permite que o glifosato forme complexos com o arsênio, o cádmio e outros metais pesados encontrados nas águas subterrâneas e no solo na América Central, na Índia e no Sri Lanka. O complexo glifosato-metal pesado pode entrar no corpo humano de diversas maneiras: pode ser ingerido, inalado ou absorvido através da pele. O glifosato age como um cavalo de Troia, permitindo que o metal pesado a ele ligado evite a detecção pelo fígado, uma vez que ele ocupa os locais de ligação que o fígado normalmente obteria. O complexo glifosato-metal pesado chega aos túbulos renais, onde a alta acidez permite que o metal se separe do glifosato. O cádmio ou o arsênio causam então danos aos túbulos renais e a outras partes dos rins, o que ao final resulta em falência renal e, com frequência, em morte.

Por enquanto, a elegante teoria proposta pelo dr. Jayasumana e seus colegas pode apenas ser considerada geradora de hipóteses. Outros estudos científicos serão necessários para confirmar a hipótese de que a CKDu realmente se deve à toxicidade do glifosato-metal pesado para os túbulos renais. Até agora, esta parece ser a melhor explicação para a epidemia.

Outra explicação é a de que o estresse por calor pode ser a causa, ou a combinação entre estresse por calor e toxicidade química. A Monsanto, claro, tem defendido o glifosato e contestado a afirmação de que ele tenha qualquer coisa a ver com a origem da CKDu.

Ainda que não exista uma prova conclusiva a respeito da causa exata da CKDu, tanto o Sri Lanka quanto El Salvador invocaram o princípio da precaução. El Salvador baniu o glifosato em setembro de 2013 e atualmente está procurando alternativas mais seguras. O Sri Lanka baniu o glifosato em março deste ano por causa de preocupações a respeito da CKDu.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

O glifosato tem uma história interessante. Depois de seu uso inicial como agente descamador pela Stauffer Chemical, os cientistas da Monsanto descobriram suas qualidades herbicidas. A Monsanto patenteou o glifosato como herbicida na década de 1970 e tem usado a marca “Roundup” desde 1974. A empresa manteve os direitos exclusivos até o ano 2000, quando a patente expirou. Em 2005, os produtos com glifosato da Monsanto estavam registrados em mais de 130 países para uso em mais de cem tipos de cultivo. Em 2013, o glifosato era o herbicida com maior volume de vendas no mundo.

A popularidade o glifosato se deve, em parte, à percepção de que é extremamente seguro. O site da Monsanto afirma:

"O glifosato se liga fortemente à maioria dos tipos de solo e por isso não permanece disponível para absorção pelas raízes das plantas próximas. Funciona pela perturbação de uma enzima vegetal envolvida na produção de aminoácidos que são essenciais para o crescimento da planta. A enzima, EPSP sintase, não está presente em pessoas ou animais, representando baixo risco para a saúde humana nos casos em que o glifosato é usado de acordo com as instruções do rótulo".

Por causa da reputação do glifosato em termos de segurança e de efetividade, John Franz, que descobriu a sua utilidade como um herbicida, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia em 1987. Franz também recebeu o Prêmio Carothers da Sociedade Americana de Química em 1989, e a Medalha Perkins da Seção Americana da Sociedade da Indústria Química em 1990. Em 2007, foi aceito no Hall da Fama dos Inventores dos EUA pelo seu trabalho com o herbicida. O Roundup foi nomeado um dos "Dez Produtos que Mudaram a Cara da Agricultura" pela revista Farm Chemicals, em 1994.

Nem todo mundo concorda com essa percepção a respeito da segurança do glifosato. A primeira cultura de Organismo Geneticamente Modificado (OGM) resistente ao Roundup (soja) foi lançada pela Monsanto em 1996. Nesse mesmo ano, começaram a aparecer as primeiras ervas daninhas resistentes ao glifosato. Os fazendeiros responderam usando herbicidas cada vez mais tóxicos para lidar com as novas superpragas que haviam desenvolvido resistência ao glifosato.

Além da preocupação a respeito da emergência das superpragas, um estudo com ratos demonstrou que baixos níveis de glifosato induzem perturbações hormonal-dependentes graves nas mamas, no fígado e nos rins. Recentemente, dois grupos de ativistas, Moms Across America (Mães em toda a América) e Thinking Moms Revolution (Revolução das Mães Pensantes), pediram à Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) para pedir um recall do Roundup, citando um grande número de impactos adversos sobre a saúde das crianças, incluindo déficit de crescimento, síndrome do intestino solto, autismo e alergias alimentares.

O glifosato não é um produto comum. Além de ser um dos herbicidas mais usados no mundo, é também o pilar central do templo da Monsanto. A maior parte das sementes da empresa, incluindo soja, milho, canola, alfafa, algodão, beterraba e sorgo, são resistentes ao glifosato. Em 2009, os produtos da linha Roundup (glifosato), incluindo as sementes geneticamente modificadas, representavam cerca de metade da receita anual da Monsanto. Essa dependência em relação aos produtos com glifosato torna a Monsanto extremamente vulnerável à pesquisa que questiona a segurança do herbicida.

As sementes resistentes ao glifosato são desenhadas para permitir que o agricultor sature os seus campos com o herbicida para matar todas as ervas daninhas. A safra resistente ao glifosato pode então ser colhida. Mas se a combinação do glifosato com os metais pesados encontrados na água subterrânea ou no solo destroi os rins do agricultor no processo, o castelo de cartas desmorona. É isso que pode estar acontecendo agora.

Um confronto sério está tomando corpo em El Salvador. O governo norte-americano tem pressionado El Salvador para que compre sementes geneticamente modificadas da Monsanto ao invés de sementes nativas dos seus próprios produtores. Os EUA têm ameaçado não liberar quase US$ 300 milhões em empréstimos caso El Salvador não compre as sementes da Monsanto. As sementes geneticamente modificadas são mais caras e não foram adaptadas para o clima ou para o solo salvadorenho.

A única “vantagem” das sementes OGM da Monsanto é a sua resistência ao glifosato. Agora que ele se mostrou uma possível, e talvez provável, causa de CKDu, essa “vantagem” já não existe.


Mural, Concepción de Ataco, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Qual a mensagem dos EUA para El Salvador, exatamente? Talvez a hipótese mais favorável seja a de que os EUA não têm ciência de que o glifosato pode ser a causa da epidemia de doença renal fatal em El Salvador e que o governo sinceramente acredita que as sementes OGM vão proporcionar um rendimento melhor. Se for assim, uma mistura de ignorância e arrogância está no coração desse tropeço na política externa norte-americana. Uma explicação menos amigável poderia sugerir que o governo coloca os lucros da Monsanto acima das preocupações acerca da economia, do meio ambiente e da saúde dos salvadorenhos. Essa visão poderia sugerir que uma mistura trágica de ganância, descaso e insensibilidade para com os salvadorenhos está por trás da política americana.

Infelizmente, existem evidências que corroboram a segunda visão. Os EUA parecem apoiar incondicionalmente a Monsanto, ignorando qualquer questionamento a respeito da segurança dos seus produtos. Telegramas divulgados pelo WikiLeaks mostram que diplomatas norte-americanos ao redor do mundo estão promovendo as culturas OGM como um impertativo estratégico governamental e comercial. Os telegramas também revelam instruções no sentido de punir quaisquer países estrangeiros que tentem banir as culturas OGM.

Qualquer que seja a explicação, pressionar El Salvador, ou qualquer país, para que compre sementes OGM da Monsanto é um erro trágico. Não é uma política externa digna dos EUA. Vamos mudar isso. Vamos basear nossa política externa, assim como a doméstica, nos direitos humanos, na vanguarda ambiental, na saúde e na equidade.

Pós-escrito: Depois que vários artigos a respeito da questão das sementes apareceram na mídia, o The New York Times informou que os EUA reverteram sua posição e devem parar de pressionar El Salvador para que compre as sementes da Monsanto. Até agora, os empréstimos ainda não foram liberados.

*Por Jeff Ritterman, no Truthout | Tradução: Maria Cristina Itokazu